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Mototurismo – Cuenca (Espanha) em modo lento

Fernando Neto Por Fernando Neto
13 Julho, 2026
em Motomais, Mototurismo
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Viajar de moto nunca é apenas a deslocação. É uma forma de viver o tempo, de saborear a distância e de transformar os quilómetros em histórias. A minha viagem até Cuenca, feita na Royal Enfield Trials 500, uma máquina simples, honesta e com aquela alma clássica que nos faz abrandar sem culpa. Foi exatamente isso: uma travessia lenta, económica e feita com o prazer da estrada acima de qualquer destino. Durante cinco dias, cruzei fronteiras, serras, parques naturais e pequenas cidades espanholas, sempre ao ritmo de quem não tem pressa. Porque, afinal, nestas motos não se percorre o caminho, vive-se dentro dele.

POR Rui Domingues  Fotos: Rui Domingues

Dia 1 (Lisboa – Mérida)

A rota que nunca cansa

S aí cedo, ainda a cidade acordava, por volta das oito da manhã. O plano era simples: seguir sempre pelas nacionais até Badajoz, usando a velha N4, estrada que, pela minha conta, já devo ter cruzado dezenas de vezes. Há qualquer coisa de especial nestas rotas antigas. Não são rápidas, não são direitas, mas têm personalidade. As curvas parecem guardar uma memória, as retas lembra-nos que a pressa é um luxo de quem não gosta verdadeiramente de viajar.

A primeira paragem foi Montemor-o-Novo. É quase ritual: um café, um esticar das pernas, um momento para observar a Royal Enfield, silenciosa e fiel, preparada para mais um dia de estrada. Segui depois rumo a Badajoz, sempre com o ritmo constante do monocilíndrico a preencher o capacete.

Em Badajoz, o plano era resolver um  esquecimento da viagem: a almofada de campismo. Quando se viaja em modo “low cost”, dormir “bem” é fundamental. Uma paragem rápida numa loja e estava o problema resolvido.

Com tudo tratado, avancei até Mérida, sítio escolhido para a primeira noite no campismo local. Montar a tenda ao final da tarde, sentir o cheiro da relva, organizar o pequeno espaço que seria a minha casa por umas horas, tudo isto é parte do que mais aprecio nestas viagens. Acampar é voltar ao essencial. A simplicidade torna-se confortável, e o silêncio ganha outro valor.

Depois do jantar improvisado num supermercado local, deixei o cansaço cair devagar. O dia seguinte prometia quilómetros largos e paisagens que ainda não conhecia tão bem.

Dia 2 (Mérida – Cuenca)

Estrada em Estado Puro

A alvorada trouxe ar fresco e aquele momento único de acordar dentro de uma tenda: o rumor do acampamento, o som distante de motores a ligar, o barulho suave da natureza. Arrumei tudo, preparei a Enfield e segui viagem com destino a Cuenca.

Este dia seria o mais longo. Mantive sempre o espírito “low cost”, com todas as refeições feitas em supermercados ao longo da rota: saladas frescas, pão fresco, fruta, algo rápido e simples e água sempre muita água. Nada tira mais tempo e dinheiro do que restaurantes quando o objetivo é viajar leve.

A estrada foi alternando entre planícies e pequenas serras, sempre com vilas castelhanas pelo caminho, cada uma mais tranquila do que a anterior. É curioso como, em viagens de moto, não se recordam apenas os lugares, mas também os cheiros: o aroma do trigo seco, o calor da terra, o perfume fugaz dos pinhais.

Cheguei a Cuenca já com o fim de tarde a dourar os edifícios. O campismo escolhido fica um pouco afastado da cidade, rodeado de árvores altas e silêncio. Montei a tenda com a destreza adquirida ao longo de tantas viagens e sentei-me por alguns minutos apenas a observar o céu mudar de cor. Havia chegado. Dois dias de estrada, sempre com a Enfield a marcar o compasso, e a sensação de liberdade completava-se ali, naquele cenário simples.

Dia 3 — Cuenca

entre rochas suspensas e serras infinitas

O terceiro dia foi reservado exclusivamente para conhecer a cidade. Cuenca é um lugar especial, diferente de tudo o que já visitei em Espanha. As Casas Colgadas, suspensas sobre o abismo, parecem desafiar a gravidade e obrigam-nos a contemplar o engenho humano. As ruas estreitas e íngremes convidam a caminhar sem rumo.

Visitei a cidade com tempo, sem pressas, subindo até à parte alta, entrando em miradouros que revelavam a paisagem esculpida por milhares de anos de vento e água. Cuenca é um lugar feito de pedra e história, mas também de natureza. E foi precisamente isso que procurei a seguir: as serras que a rodeiam.

Com a moto leve, sem bagagem, percorri várias estradas sinuosas, parques e miradouros. As curvas ofereciam um quadro novo, com pinhais densos, falésias imponentes e vales profundos. Parava apenas para respirar a paisagem, para registar mentalmente aqueles momentos, e para ouvir o motor a estalar enquanto arrefece. Nestes passeios, a Royal Enfield brilhou: não pela velocidade, mas pela simplicidade com que transforma as estradas em prazer puro.

Ao regressar ao campismo, já ao final da tarde, senti que aquele dia tinha valido por toda a viagem. Cuenca não é apenas bonita, é marcante. Guarda uma energia que mistura silêncio, imponência e um toque quase místico.

Dia 4 (Cuenca – Alcaracejos)

O Regresso Sem Pressa

Chegou o momento de iniciar o regresso, mas decidi fazê-lo pelo caminho menos direto. Viajar numa moto clássica convida a isto: escolher estradas alternativas, aceitar desvios, descobrir lugares que nem sabia que existiam.

Segui rumo sul, atravessando pequenas povoações castelhanas e troços de estrada onde quase não cruzei viva alma. A paisagem começava a mudar, ficando mais seca, mais ampla e mais andaluza. A Royal Enfield mantinha-se firme, com o característico pulso do motor a acompanhar a monotonia da planície.

Ao final do dia cheguei a Alcaracejos, na província de Córdoba, onde reservei um “hostal”. Foi a única noite da viagem em que não dormi em tenda. O corpo já pedia um colchão verdadeiro, um duche quente e algum conforto. Brinco muitas vezes que “é preciso pôr o esqueleto no sítio”, e aquela noite foi exatamente isso.

Uma caminhada curta pela vila, um jantar simples e cedo, e tudo estava pronto para o último dia de viagem.

Dia 5 (Alcaracejos – Casa)

Olivença e a última linha da N4

Com o nascer do sol, preparei a moto e iniciei o último troço. Atravessar estradas espanholas de manhã cedo é uma experiência tranquila, quase meditativa. A luz ainda é suave, a temperatura é amena, a estrada ainda está vazia.

A entrada em Portugal foi feita por Olivença, essa cidade com identidade particular, que muitos portugueses ainda olham com um sentimento de posse histórica. Não há fronteira física, e é precisamente isso que torna a travessia tão simbólica: entramos sem perceber bem quando mudamos de país, como se o mapa ali tivesse uma pequena hesitação, e na realidade até tem.

Depois de Olivença, reencontrei a velha conhecida N4. A mesma estrada do primeiro dia, agora vivida no sentido inverso, mas com outra energia. As viagens são assim: o caminho é o mesmo, mas nós já não somos.

Cheguei a casa com a sensação de missão cumprida. Foram cinco dias simples, económicos, sem luxos, mas cheios daquilo que importa: estrada, liberdade e o prazer puro de viajar numa moto com carácter.

CONCLUSÃO

Esta viagem a Cuenca foi um lembrete de que não é preciso muito para viver muito. Uma Royal Enfield Trials 500, uma tenda, um saco-cama, alguns supermercados pelo caminho e vontade de seguir pelas estradas secundárias. Viajar devagar é permitir que o mundo entre, que a estrada conte histórias e que as paragens façam sentido.

No final, não guardo apenas o destino ou as fotografias. Guardo as estradas vazias, os acampamentos silenciosos, os cafés tranquilos da província, o cheiro da terra espanhola ao calor e o roncar constante do motor.

É isto que nos faz continuar a viajar: a certeza de que, enquanto houver estradas nacionais, pequenas cidades e tempo para não ter pressa, o mundo continuará a ser um lugar enorme e fascinante.

Tags: CuencamotosViajarViajar de Moto

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