O nosso campeão nacional de Pré-Moto3, no campeonato nacional de velocidade em 2025, está duplamente de parabéns. Isto porque, além do título, foi também apurado para a próxima época da Red Bull Rookies Cup! Motivos mais do que suficientes para uma entrevista perto da sua casa.
POR Fernando Neto • Fotos Paulo Calisto
Atualmente com 16 anos, Afonso Almeida experimentou pela primeira vez uma moto aos 5 anos de idade, no Off-Road Camp Yamaha. Não adorou as sensações do fora de estrada, mas quando andou numa moto de velocidade, aos 8 anos, da Oliveira Cup, a paixão foi imediata! A partir daí tudo foi acontecendo naturalmente, e a partir de 2020 as coisas foram ficando mais sérias, em termos competitivos e de resultados. Afonso considera-se uma pessoa divertida e amante do desporto em geral, e foi na empresa do seu pai, onde estão as suas motos de corrida, que resolvemos realizar esta entrevista.

Revista MOTOS (RM) – Olá Afonso. Começamos esta entrevista já ao final da tarde, o que quer dizer que tiveste aulas até há pouco…
Afonso Almeida (AA) – Mais ou menos. Acabei as aulas por volta das 16h30, mas não foi um dia muito cansativo. O mais cansativo é quando também tenho treinos, mas ainda não entrei na fase da pré-temporada, por isso está tudo controlado.
RM – E como estão a correr os estudos?
AA – Agora estão a correr bem. A verdade é que quando estamos na pré-época parece que é o momento em que temos mais tempo livre, mas existem muitos treinos, e é muito cansativo acabar um treino e ter de voltar para as aulas ou vice-versa. Ou quando tenho uma semana de corridas e tenho de recuperar tudo na semana seguinte, mas dentro de 2 semanas já existe mais uma corrida. Por isso, agora não está a ser cansativo, mas costuma ser.
RM – Até onde é que queres chegar nos estudos? Pergunto isto pois acredito que queiras ser piloto profissional.
AA – É por isso que estou a fazer as aulas online, senão era muito difícil continuar. Faltando às aulas e tudo isso, seria muito difícil completar a escola, mas no mínimo tenho de completar o 12º ano. Acho que, se continuar a seguir este sonho, e a ter as oportunidades que tenho tido, será muito difícil completar a faculdade. Obviamente que gostaria de o fazer e os meus pais sempre mostraram essa importância da escola, aliás sempre me disseram o “ditado” de, ‘se não há boas notas não há motos’, mas acho que será difícil completar os estudos.

RM – Apesar de compreenderes os teus pais e a importância dos estudos…
AA – Sim, e sempre tive boas notas. A questão é que, com 18 anos espero estar já num campeonato do mundo, seja Superbike ou MotoGP, e a verdade é que estamos sempre a viajar pelo mundo e é impossível conciliar. Se já é difícil para mim estar a fazer o 11º ano, imagino a faculdade, mas espero terminar pelo menos o 12º.
RM – Tu és da Charneca da Caparica, portanto praticamente vizinho do Miguel Oliveira. Isso é só uma grande coincidência? Existe alguma poção mágica que vocês tomam aqui nesta zona?
AA – A Charneca da Caparica é a zona dos heróis (risos).
A notícia do ano
RM – E este ano, uma das principais notícias é que entraste para a Red Bull Rookies Cup…

AA – Exato, a Red Bull Rookies Cup é o maior campeonato do mundo para a minha idade e é uma porta para chegar ao MotoGP, para iniciar o caminho para lá chegar.
RM – Sentes que a tua entrada na Red Bull Rookies Cup vem abrir-te portas e de certeza que vais agarrar esta oportunidade com “unhas e dentes”. Quais são as tuas expetativas?
AA – Esta é uma grande oportunidade, e na Red Bull tanto podes entrar como podes sair, pois este é um campeonato em que somos selecionados, não existe algo pago ou uma equipa que nos vem buscar. Normalmente escolhem 8 pilotos, são 3 anos de limite, mas dentro do primeiro e segundo ano, se não fores bom suficiente para eles podes ir para casa, por isso é uma oportunidade que vou aproveitar. As minhas expetativas são de começou pelo top 15, top 10, e ao longo da época começar a disputar pelo grupo da frente por pódios e vitórias.
RM – Como foram as provas de seleção? Além da rapidez em pista houve muitos outros fatores a pesar?
AA – Muita gente pensa que apenas os tempos é que contam, mas não é só isso. O mundo é muito mais completo do que aquilo que as pessoas veem, e dentro das provas da Red Bull, obviamente que tens de ser rápido, mas também olham para a bandeira, observam como te comportas dentro e fora de pista, toda a tua disciplina, como te focas…

RM – Sabes se olharam para todo o teu palmarés que está para atrás?
AA – Não sei, acho que sim, que acabam sempre por olhar um pouco. Até porque são 115 os pilotos escolhidos para as seleções, não escolhem ao calhas. Nós inscrevemo-nos num site e depois, acho que houve 5.000 inscrições este ano, eles acabam por escolher 115 participantes. Depois 50 vão à final e desses 50 vão 8 à final. E lá está, não é só ser rápido, isso também é importante, mas eles veem se estamos sempre focados, o que fazemos quando saímos da moto, os nossos rituais, o nosso aquecimento. Olham para nós quando não estamos a andar, se estamos concentrados ou se estamos na brincadeira com os outros, qual a nossa atitude dentro de pista, tudo isso.
RM – E falaste na bandeira. O que quiseste dizer com isso?
AA – Neste momento existem muitos pilotos espanhóis no mundial, tal como italianos e tudo mais. E dentro da Red Bull normalmente só dois espanhóis são selecionados, o resto tentam ir buscar a todo o mundo, ou seja, tentam ir buscar a países que ainda não estão presentes na Red Bull. Os espanhóis estão “lixados” neste caso, pois são eles que normalmente ganham tudo, o que eu espero poder mudar.

RM – Falando do teu percurso na velocidade, este ano foste campeão nacional de Pré-Moto 3 e até tens a moto aqui na sala, mas sentes que deste sempre os saltos ideais entre categorias?
AA – Acho que a melhor escola que houve, e onde eu comecei, foi a Oliveira Cup. É claro que houve pilotos que não passaram pela Oliveira Cup e que são rápidos, no campeonato nacional e fora, mas a Oliveira Cup acho que foi a melhor escola, preparando bem os pilotos para classes mais importantes. Neste momento acho que o campeonato nacional não está a ser uma boa escola, e por isso é que muitos pilotos acabam por ir para Espanha, Itália ou outros locais, por forma a ficarem com mais nível.
RM – Explica-nos então o que fizeste com esta moto que está atrás de mim, na temporada 2025.
AA – É a moto com que corri no campeonato nacional, e com a qual foi campeão nacional de Pré-Moto3. No JuniorGP também corri com uma moto igual, mas com outra que é da equipa. Esta moto há uns anos atrás era considerada uma Moto3, é uma moto de 2011/2012, e ainda se corre com ela no campeonato mundial júnior. É uma moto com um pouco menos de potência das atuais, mas é muito parecida e gosto de a ter sempre aqui perto de mim.
RM – E a família, esteve sempre do teu lado, tanto quando começaste por brincadeira como quando começou a ficar mais sério?
AA – Essa pergunta é engraçada, porque ainda agora preenchi um questionário da Red Bull onde vinha essa pergunta. Na verdade, os meus pais nunca irão sair da minha carreira. O meu pai sempre me disse que o objetivo dele enquanto pai mas motos era levar-me um dia até à Red Bull e depois estaria um pouco mais fora, mas agora as motos são a minha vida, por isso era como retirar os pais de parte da minha vida, portanto farão sempre parte da minha carreira e da minha vida, e serão sempre muito importantes.

RM – O teu pai chegou a correr de moto ou é apenas um apaixonado pelas duas rodas?
AA – O meu pai fazia “cavalinhos” e era um maluco na estrada (risos). Ainda anda mas agora não tem tempo, também anda sempre comigo para todo o lado, mas tanto ele como a minha mãe sempre gostaram muito de motos, daí a paixão.
RM – Só mais uma pergunta. A partir daqui o teu foco é simplesmente chegar ao MotoGP, ou se chegares a um campeonato profissional como o espanhol, o italiano ou o Mundial de Endurance, por exemplo, já seria para ti uma satisfação grande?
AA – Quero chegar ao MotoGP e estar lá para fazer história e ganhar, o objetivo é esse! Gostava de agradecer à minha equipa, aos meus pais, família e patrocinadores, assim como a todos que me têm apoiado e ajudado ao longo destes anos. E vamos com tudo para 2026!
RM – Muito obrigado Afonso, e que tudo corra bem na próxima temporada!



