Dois meses de chuva persistente e vento forte deixaram marcas profundas no território. A passagem da Tempestade Kristin não foi apenas um episódio meteorológico intenso, foi um verdadeiro teste à resistência das infraestruturas e das economias locais. Quando finalmente surgiu uma janela de estabilidade, a decisão foi simples, voltar à estrada, mas com um objetivo claro, passar por algumas das zonas mais afetadas e contribuir, ainda que de forma modesta, para a sua recuperação.
POR Rui Domingues Fotos: Rui Domingues

A saída de Lisboa fez-se cedo e aos comandos de uma BMW R 1300 GS, companheira ideal para um percurso longo por estradas secundárias. A escolha da rota privilegiou estradas regionais e camarárias, evitando ao máximo as vias rápidas. Mais do que chegar depressa a Tomar, o objetivo era percorrer o país real, aquele que liga aldeias, atravessa campos agrícolas e serpenteia entre colinas.
Os primeiros quilómetros revelaram imediatamente os efeitos de um inverno particularmente duro. Bermas degradadas, gravilha espalhada, ramos acumulados e alguns troços ainda em processo de limpeza. A condução exigiu atenção constante ao piso e uma leitura cuidada do ambiente. Depois de tempestades intensas, a estrada muda e o motociclista tem de se adaptar.

A chegada a Tomar trouxe uma breve pausa. Um café em frente ao Rio Nabão permitiu observar um caudal ainda expressivo e margens que evidenciam a força recente da água. Vegetação tombada, pequenos amontoados de detritos e sinais de trabalhos de recuperação lembram que o impacto da tempestade não desaparece de um dia para o outro.
De seguida, a rota apontou para Dornes, um dos lugares mais fotogénicos da região. A aproximação fez-se por estradas estreitas e técnicas, aproveitando um novo enquadramento paisagístico em cada curva e contra curva. Também aqui a tempestade deixou sinais evidentes, algumas vias cortadas por quedas de árvores e outras condicionadas por zonas inundadas. Pequenos desvios improvisados fazem parte da viagem e recordam que a natureza ainda está a reorganizar o território.

Junto à Torre Pentagonal de Dornes a paisagem mantém a sua imponência habitual. A torre ergue-se sobre a albufeira com a mesma serenidade de sempre, como se observasse silenciosamente o passar dos séculos e das tempestades.
O almoço aguardava em Sertã, terra onde a gastronomia é parte essencial da identidade local. À mesa chegaram os inevitáveis maranhos e um generoso bucho, sabores robustos e reconfortantes que combinam na perfeição com um dia frio de estrada. Escolher estes destinos foi também uma forma consciente de apoiar cafés, restaurantes e pequenos negócios que enfrentaram semanas particularmente difíceis. Ajudar pode começar por algo tão simples como parar, consumir e valorizar o que cada região tem para oferecer.

Com o horário de inverno a encurtar rapidamente a luz do dia, chegou a hora do regresso. Novamente por estradas lentas e muito lentas, aquelas que revelam paisagens que nunca cansam. Pelo caminho ainda surgiam estradas cortadas por árvores caídas e outras temporariamente encerradas devido a zonas inundadas.
A tempestade passou, mas deixou uma marca visível. Voltar a estas estradas não foi apenas um passeio de moto, foi também uma pequena forma de proximidade com quem ali vive e trabalha todos os dias.

Condução após tempestades
• Reduza o ritmo e aumente a margem de segurança
• Evite travagens bruscas em zonas com detritos
• Tenha especial atenção a gravilha e lama nas curvas
• Prepare-se para desvios inesperados
• Verifique pneus, travões e iluminação antes de sair para a estrada
Curiosidades
• Tomar foi durante séculos um centro estratégico da Ordem dos Templários em Portugal e conserva um património histórico de enorme relevância.
• Dornes é uma pequena península sobre o Zêzere e a sua torre pentagonal é um raro exemplo deste tipo de arquitetura militar em território português.
• Sertã é conhecida pela sua forte tradição gastronómica, onde os maranhos ocupam um lugar de destaque na cozinha regional.



