Madalena Simões foi a nossa representante nacional no World WCR (Women’s Circuit Racing) em 2025, um campeonato do mundo feminino que acompanha o Mundial de Superbike em algumas rondas. Só por isso já valia a pena esta entrevista, mas houve muitas mais curiosidades a sublinhar nesta conversa.
POR Fernando Neto • Fotos Paulo Calisto e Madalena Simões
Revista MOTOS (RM) – Madalena, foi mesmo uma grande aventura decidires fazer o campeonato mundial feminino em 2025, não foi?
Madalena Simões (MS) – Foi. Primeiro foi uma surpresa, porque eu já não corria de moto há praticamente 4 anos, tenho a minha scooter mas isso não conta. Decidi inscrever-me, sem saber o resultado, e quando saíram as listas e eu vi que tinha entrado, de repente tinha 3 ou 4 meses para preparar tudo. Ou seja, voltar a andar de moto, inscrever-me em ginásios… Eu tinha vendido a moto, os fatos, capacetes, portanto tive de voltar a tratar de toda a logística e ganhar ritmo competitivo em 3 ou 4 meses para estar em Assen na primeira prova.

RM – Tu começas a correr na velocidade já um bocadinho tarde, com 18 anos não é?
MS – Sim, eu entrei na escola de iniciação com 17 anos e a minha primeira corrida foi já no ano seguinte.
RM – A partir daí competes durante algum tempo no nacional de velocidade, mas depois como é que dás esse grande passo para te inscreveres no campeonato do mundo?
MS – Para já, eu não corria há algum tempo e tinha saudades. Achei piada ser um campeonato feminino, novo, o que me despertou a atenção, e também acessível, no sentido que era feito para chamar as mulheres para o motociclismo. O formato também me interessou bastante, visto serem motos iguais para todas, assistência igual para toda a gente, e todo esse formato chamou-me à atenção.

RM – Acabou por ser uma temporada difícil, mas em que se notou que estavas mais à vontade de prova para prova. Sentes que o campeonato terminou quando devia estar a começar para ti?
MS – Sim (risos), foi mesmo isso. Eu sabia que nas primeiras corridas iria terminar em último, era inevitável. Não conhecia a moto, a Yamaha R7, não tive tempo de treinar com ela. Acho que só fiz um treino no circuito do Estoril antes de ir para o mundial com ela, o que não foi suficiente, obviamente. Serviu apenas para conhecer um pouco da moto. Depois, fui ganhando um bocadinho do ritmo competitivo, porque quando estamos muito tempo fora das pistas a velocidade começa a fazer alguma confusão. O cérebro já não está habituado, e aquelas tomadas de decisão, o ver alguém ultrapassar pela direita e pela esquerda sem hesitar… é muito difícil voltar a ter esse ritmo, a procurar os limites. Tive de me habituar a tudo a isso e também a passar de uma 300 cc para uma 700 cc, o que é diferente em termos de velocidade e o peso da moto que também não ajudou. Mas nas últimas corridas já me sentia confortável, comecei a meter a moto, a ultrapassar, mas o campeonato é composto apenas por 6 corridas e passa tudo muito depressa.
Ao lado de famosos
RM – E como é fazer um campeonato do mundo? Já sabemos que dentro das pistas foi difícil, mas em termos de ambiente, ver todas aquelas caras conhecidas… como é que foi?
MS – É muito giro, porque eu era fã da Maria Herrera, da Ana Carrasco e da Beatriz Neila e de repente era amiga delas. Elas cumprimentavam-me, sorriam para mim, vinham perguntar-me coisas, davam-me abraços, e foi difícil para mim cair na realidade do que estava a acontecer. No outro dia recebi uma mensagem privada da Maria e também fiquei surpreendida por ela estar a falar comigo. Foi muito engraçado.

RM – As amizades que fizeste aconteceu um bocadinho com pilotos de todo o lado ou foi mais com as espanholas?
MS – Com as espanholas foi fácil porque não havia tanto a barreira linguística, nós conseguíamos falar muito bem umas com as outras. Com as australianas e inglesas também foi mais simples, uma vez que também falo inglês, portanto dava para comunicar. Com as meninas que não falavam inglês também nos cumprimentávamos bem, mas não se criou uma amizade tão grande.
RM – Nas corridas penso que havia sempre um grupo de 3 / 4 pilotos, e depois havia um grupo muito numeroso onde tentavas entrar, pois aí dava para lutar por lugares interessantes. Era isso que também sentias?

MS – Sim, era dividido por três. Havia o grupo das últimas, o grupo intermédio e o grupo da frente que normalmente era o das espanholas. Nas últimas duas corridas já estive perto de pontuar, mas lá está, ainda estava a acabar de entender a moto, as pistas e um campeonato internacional, pois até aqui só tinha corrido em Portugal, onde as grelhas tinham 5 ou 6 pilotos e andávamos todas algo separadas. Lá fora não, passam três pela direita e duas pela esquerda (risos), e também é preciso habituarmo-nos a isso. Fui melhorando e só é pena que o campeonato já tenha terminado, pois acho que com mais duas corridas teria facilmente pontuado, mas é assim.
RM – E o que achaste da ideia da FIM em criar este campeonato, já que até aqui homens e mulheres corriam sempre juntos na velocidade?
MS – Quando anunciaram o campeonato, para ser honesta, confesso que não achei muita graça. Achava que não era necessário nada disso, pois as mulheres podiam correr ao lado dos homens como sempre. E nem liguei à primeira edição do campeonato feminino. Mas depois quando começou a surgir essa hipótese de ir lá correr, comecei a estudar melhor tudo, ver como era o andamento delas, como eram as pistas, a moto, e a partir daí vi as corridas todas de 2024 umas 30 vezes para poder absorver ao máximo as informações.
RM – Qual o teu circuito favorito até ao momento?
MS – Donington Park, depois em segundo lugar Assen e em terceiro Jerez.
RM – E sentes que andaste melhor nos teus circuitos favoritos?
MS – Sim, são os circuitos mais rápidos e mais fluídos que eu gosto mais, e acho que encaixo melhor em termos de pilotagem.
O futuro
RM – E agora a pergunta necessária. Como será daqui para a frente e o que pensas fazer em 2026?
MS – Tenho em vista fazer o campeonato europeu feminino. Basicamente é um campeonato também só para a Yamaha R7, o que é bom pois já conheço a moto. Depois existem diferenças na estrutura da prova, mas é na mesma um campeonato com ligação ao mundial, como se fosse um campeonato irmão, pois salvo erro, as três primeiras do europeu passam para o mundial. O meu objetivo é regressar ao mundial em 2027, por isso vou dar um passo para o lado para focar-me mais na minha evolução, e sinto que vou conseguir andar mais na frente deste campeonato, ganhar ritmo e lutar por lugares cimeiros, para depois em 2027, no mundial espero eu, poder fazer bons resultados.
RM – E como está a ser a tua pré-época neste inverno tão rigoroso?
MS – Em termos de treinos físicos nunca parei. Só o flat track que costumo treinar é que não tem dado para fazer pois o local fica todo alagado. Tenho feito também treinos de kartódromo com uma minimoto e com a R7 é que ainda não andei mas espero voltar a treinar em breve.

RM – Temos estado a falar de motos e de corridas, mas como é a Madalena Simões fora das pistas? Ainda estudas?
MS – Já não, terminei o meu mestrado em novembro do ano passado, defendi a minha tese relacionada com alterações climáticas e com a qualidade do ar, num mestrado de ciências geofísicas. Neste momento não estou a trabalhar na área, pois não me dá flexibilidade para fazer treinos de moto e de ginásio, então neste momento estou a trabalhar com o meu pai, pois é o patrão que me dá as “abébias” todas (risos) e permitiu que eu estivesse aqui hoje! Para além dos estudos tenho outros interesses, mas o que me define são as motos.
RM – Falaste do teu pai, mas tu já vens de uma família de pilotos, mesmo que em jovem não o soubesses, correto?
MS – Ninguém me tinha informado até que um dia estava na casa da minha avó, com 8 ou 9 anos, e entrei numa divisão com muitas taças. E então ela explicou-me que era o meu tio que andava nas motos, embora não me tenha dado muitos detalhes até porque ela não era fã disso (risos). Depois falei com o meu tio e ele foi explicando, mas ainda hoje descubro coisas que ele fez e onde correu.
RM – Sei também que andas numa luta incansável por patrocínios, e necessitas que mais empresas te possam apoiar para poderes continuar neste teu sonho que é andares lá fora, no europeu ou no mundial.
MS – É verdade, essa é a parte mais complicada disto tudo (risos). Desde setembro do ano passado que ando a enviar propostas de parceria para todas as empresas de que me lembro e mais algumas, especialmente empresas nacionais porque é mais fácil criar um vínculo. Já enviei 2.000 / 3.000 emails, e cerca de 20% respondem, e desses muito respondem um não quase instantâneo. Não existe uma cultura de motociclismo no nosso país, é quase tudo virado para outros desportos, e se o público não consome material das corridas algumas empresas acham que não vão conseguir ter retorno, e por isso é difícil. Mas continuo na luta e vou chateando toda a gente (risos).

RM – E queres agradecer a quem? Aqueles que mais merecem por te ajudarem até aqui?
MS – Quero agradecer à minha equipa, constituída pelo Francisco e pelo André, que é o meu treinador e namorado, agradecer ao meu pai que foi o que suportou grande parte dos custos do ano passado e a todos os meus amigos e família que foram a outros países ver as minhas corridas e deram aquela força especial. E obrigado aos meus fãs, pois aparentemente agora tenho fãs na China e na República Checa (risos). Começo a receber emails e mensagens, é incrível e não contava por isso.
RM – Obrigado Madalena e que corra tudo pelo melhor!
MS – Obrigado!
(Nota: entrevista publicada na Revista Motos de março 2026, pelo que algumas declarações referentes ao futuro da Madalena Simões poderão já não estar atualizadas)



