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As mulheres e a carta de moto

Domingos Janeiro Por Domingos Janeiro
8 Maio, 2026
em Notícias
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As mulheres e a carta de moto: Ainda são uma percentagem pequena mas já considerável

A condução de motos por mulheres está em crescimento global, impulsionada pela crescente igualdade na sociedade e busca de independência e superação de barreiras culturais. Se isto é verdade em Portugal, é uma estatística absolutamente fundamental em países onde a moto é o principal meio de transporte, como na maior parte da Ásia. Os dados sugerem também que o aumento de mulheres motociclistas pode contribuir para um ambiente rodoviário mais seguro. O aumento da presença feminina reduz estatísticas de acidentes e desafia tabus.

Neste momento, no Paquistão, por exemplo, o programa Women on Wheels formou mais de 6 mil mulheres para lhes conferir mobilidade e autonomia.

Até no retrógado e autoritário Irão, as autoridades começaram a emitir cartas de condução de motociclos para mulheres, formalizando uma prática que já desafiava as restrições sociais, permitindo a condução de motos por mulheres.

Em Portugal, seja por desejo de autonomia, moda ou simplesmente por uma crescente diminuição das diferenças percebidas entre os sexos, o número de mulheres com carta de condução A tem evoluído, mas ainda minoritário em relação aos homens, embora de forma consistente.

Claro que, em muitos casos, as mulheres não se dão ao trabalho – e despesa! – de tirar uma carta A pois a legislação permite que, com a carta de condução de automóveis ligeiros (Categoria B) e pelo menos 3 anos de experiência, se conduzam motas até 125cc. No entanto, quisemos mesmo saber os números e as tendências que eles revelam, na obtenção de carta A.

Graças à colaboração do IMT, a nosso pedido, foram-nos facultados os números de cartas de condução emitidas por ano e por distrito, que nos permitem tirar várias conclusões:

Por um lado, a diferença por distrito é abismal, com, por exemplo, 6 mulheres a tirar a carta de moto no distrito de Portalegre, ou 8 no da Guarda, contra 239 no Porto ou 300 em Lisboa.

Isto verifica-se um pouco em todas as zonas mais ‘rurais’, com outros exemplos que poderíamos mencionar, por exemplo, Bragança/Braga (11/141) ou Évora/Setúbal (18/117).

Curiosamente, a percentagem de cartas emitidas a mulheres é muito consistente e situa-se na maioria dos distritos em cerca de 10% das emitidas a homens. O fosso aumenta nas zonas com menos cartas (as tais 6 de Portalegre tiveram como equivalente masculino 125 cartas, mais perto de 5% do que de 10) e diminui nas zonas urbanas (o equivalente masculino das tais 300 cartas de Lisboa são 2979, fazendo o número das cartas de senhora quase exatamente os tais 10%).

Mais preocupante é uma diminuição pronunciada dos números, mas acompanhada pelas estatísticas masculinas também, com o número de cartas emitidas a atingir picos em 2015, que desde então têm vindo a diminuir para pouco mais de metade.

Em Lisboa, por exemplo, emitiram-se 5.958 cartas A a homens, exatamente o dobro das tais 2979 de 2025. Se somarmos os 10 anos intervenientes, e a porção de 2026 já contabilizada, temos então 218.566 cartas masculinas contra 21.669 femininas, lá está, um número a orçar os 10%.

Assim, em 2015 foram emitidas 2.612 cartas a mulheres em todo o país, incluindo as regiões da Madeira e Açores, contra apenas 1463 em 2025… Nos homens, a diferença é proporcional, mas menos pronunciada, com 21.666 cartas em 2025 e 14.839 em 2025, neste caso, mais de metade. Curiosamente, o pico das cartas femininas foi mesmo em 2015, enquanto o dos homens se situou em 2019 com 22.041.

Se considerarmos o ano de pico, também há diferenças regionais apreciáveis, com o pico no Porto a situar-se em 2022, com 315, e os números da invicta muito mais consistentes que os da capital.

O número mínimo no Porto foi de 237 (talvez pela pandemia?), com números sempre muito perto dos 300, e o tal máximo de 315, que mostra uma variação de 78, enquanto o fosso de Lisboa, 300 cartas em 2025, revela um diferencial enorme de 583 cartas em relação ao pico de 883 de 2015.

Como tendência global, houve uma descida pronunciada a partir de 2023, de números acima de 21.000 antes, e 19.096 depois, baixando para 17.237 em 2024 e 14.839 em 2025 para homens e mais severa ainda para mulheres, com 2.153 em 2023 para 1633 em 2024, baixando para 1.580 em 2024 e apenas 1.463 em 2025.

Esta é a tendência mais preocupante, pois independentemente de género, estão a emitir-se menos cartas em Portugal (16.302 em 2025 contra 24.278 em 2015) o que obviamente terá, mais cedo ou mais tarde, uma influência nas vendas.

Em conclusão, a noção do aumento de mulheres motociclistas encartadas é algo ilusória, pois os números totais são modestos, mostrando que apenas 1 de cada 10 cartas é emitida a uma mulher, e este número mantém-se consistente, mostrando, se de todo, tendência a baixar ligeiramente. Como um parêntese curioso, as regiões da Madeira e Açores mostram, pelo contrário, algum crescimento.

O que parece é que as mulheres se assumem mais ‘motards’, guiando cilindradas maiores e apresentando-se com mais e melhor equipamento, chamando talvez por isso mais à atenção quando circulam.

TEXTO: Paulo Araújo

Tags: 2026As mulheres e a carta de motodestaqueEstatísticasmotoMulheres

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