Charme aventureiro
Trails retro ou Scramblers com atitude? Para todos aqueles que gostam deste tipo de máquinas, estas definições pouco interessam. O charme intemporal misturado com uma polivalência muito própria são promessas que a BMW R12 G/S e a Triumph Scrambler 1200 não deixam em mãos alheias. Não foi a caminho do Senegal, nem no “Gentlemans Ride”, foi mesmo na Lagoa de Albufeira que as pusemos à prova…
POR Pedro Alpiarça • Fotos Paulo Calisto COM A COLABORAÇÃO DE Luis Beethoven

A s scramblers sempre fizeram parte de um nicho muito específico da cultura motociclística. A vontade de transformar uma moto para conseguir ir mais além, era algo bastante simples e direto, bastava colocar-lhe umas suspensões com mais curso e umas rodas maiores com uns pneus cardados e estava feito. Este estilo sempre esteve associado a algum tipo de rebeldia, de confronto com o estabelecido, de definição das próprias regras. Como tal, os modelos que hoje temos em comparativo, descendem de ícones históricos, mas adaptados ao atual contexto tecnológico. A Triumph monta o seu bloco mais musculado para dar à sua Scrambler 1200 a personalidade vincada da família Bonneville. Já a BMW R12 G/S pisca o olho à original R 80 para criar uma moto que pretende reinventar o clássico espírito de aventura. Uma batalha épica entre dois grandes fabricantes europeus, e onde o passado se mistura com o futuro. Deixemos então de conversa e apresentemos as heroínas em questão…
BMW R12 G/S
Aquando do seu lançamento, a BMW anunciou que o GS challenge 2026 seria realizado com estes modelos, e tal facto serve para demonstrar o foco da marca bávara em demonstrar as capacidades aventureiras da R 12 G/S. O investimento feito na transformação de uma moto vintage para lhe dar características mais adaptadas a uma utilização mais agressiva vão muito além dos grafismos Rally.

A base motriz permanece fiel à sua origem, o motor boxer de arquitectura clássica que casa na perfeição com o conceito, mais binário que potência (109 cv para 115 Nm), significando disponibilidade e envolvência na condução na maior parte das situações. Podemos até mencionar uma certa explosividade muito engraçada de explorar.
Não será fácil dar continuidade a um motor refrigerado a ar/óleo nos tempos que correm. As normas de emissões e ruído são cada vez mais restritivas e estes blocos claramente pertencem a outra era. A BMW está de parabéns por não desistir, e nós somos agradecidos por usufruirmos desta teimosia.

As soluções ciclísticas promovem esta R12 para outro patamar dinâmico, sobretudo graças às suspensões de longo curso (210 mm no eixo dianteiro e 200 mm no eixo posterior), ao amortecedor de direção e às jantes de raios. A combinação da clássica jante de 21” na roda da frente com a de 18” traseira (disponível no “pack” enduro) permite a utilização de pneus mais agressivos.
A eletrónica disponibiliza mapas de condução polivalentes (não podendo faltar um específico para o fora de estrada, com a correspondente complacência do ABS traseiro e do controlo de tração mais permissivo), “quick-shifter”, “cruise control”, “hill-assist” e aquecimento de punhos. Pequenos luxos para grandes aventuras.




A acessibilidade pode variar consoante a escolha do cliente, sendo que com o assento original (e com a jante de 17”) podemos contar com 860 mm de altura ao solo. Conforto de rolamento a condizer com o espírito, tendo em conta que esta é uma máquina que gosta de patrocinar sensações mais puristas e menos sofisticadas. O lema desta gama é #soulfuel por algum motivo…
Triumph Scrambler 1200
Foi em 2019 que a Triumph fez nascer uma moto com uma “alcunha” indicada ao seu propósito: uma Bonneville capaz de andar por maus caminhos. A Scrambler 1200 surgia com pretensões de unir duas realidades, agradando todos aqueles que pretendiam ter um produto mais versátil sem recorrer a customizações “feitas em casa”. Para 2024 a marca inglesa simplificou a gama, sendo esta “X” o modelo de entrada, e a “XE” uma máquina mais pronta para os cenários mais extremos (com suspensões ajustáveis e de maior curso).

O bloco bicilíndrico paralelo (89 cv para 110 Nm) que serve toda esta icónica família, tem a capacidade de mostrar o seu músculo desde as mais baixas rotações, demonstrando uma elasticidade que lhe dá uma continuidade de momento muito interessante. Neste comparativo surgiu por demasiadas vezes na minha cabeça a expressão “ Velhos são os trapos”…
Eu não sou do tempo dos “Spitfires”, nunca ouvi um desses ícones da aviação da segunda guerra mundial. Mas o som deste motor faz-me querer voltar a essa época, e imagino poder atravessar uma tranquila zona rural inglesa com os carburadores completamente abertos.

Toda a arquitetura desta Triumph remete para um espírito mais clássico. Um dos sinais mais evidentes será a solução do duplo amortecedor traseiro, que muito embora tenham um curso generoso (170 mm), apenas possuem ajuste na pré-carga da mola. O paradigma mantém-se na forquilha invertida frontal (sem ajuste), com a mesma amplitude de movimentos e uma afinação capaz de se considerar “pronto para tudo”.




A Scrambler 1200 X, para além do mapa de condução específico para fora de estrada (que permite bloquear a roda traseira), serve-se de uma unidade de medição inercial para ajudar o ABS e o controlo de tração a perceber o posicionamento da máquina. A acessibilidade proporcionada pelo baixo assento (820 mm) e pela menor altura ao solo, fazem desta moto uma plataforma acessível a todo tipo de condutores, independentemente do seu nível de experiência.
Tira-teimas com poeira à mistura
Antes de prosseguirmos às nossas considerações dinâmicas temos de ser fiéis à isenção jornalística e explicar-vos que se temos a Triumph Scrambler 1200 na sua versão mais acessível, a X, no caso da BMW R12, a situação muda de figura. Os “packs” que esta unidade monta, não só escalam o preço de maneira considerável, como lhe transfiguram a personalidade. Para além da pintura exclusiva da opção 719, salientamos o “pack enduro Pro”, com eletrónica dedicada ao fora de estrada e jante traseira de 18”, o “pack conforto” com “quick-shifter”, entre outros extras como “cruise-control”, punhos aquecidos e sensor de pressão dos pneus. Toda a nossa análise seguinte teve estes fatores em consideração.

Comecemos então pelo contexto onde estas motos irão viver em grande parte dos seus dias, o asfalto e a estrada aberta. Qualquer uma delas nos oferece uma sensação mecânica intemporal, um regresso ao passado onde a máquina comunicava connosco de maneira mais direta. Longe das subtilezas tecnológicas atuais, estas arquitecturas prometem longas horas de prazer rolante, sem grande vontade de procurar limites dinâmicos. Grande parte desta bonomia aos seus comandos advém dos seus motores, dois blocos cheios de carácter mas com atitudes diferentes. Embora menos potente, o bicilíndrico da Triumph utiliza o seu binário para proporcionar uma entrega muito linear e bastante consistente, num registo totalmente oposto à brusquidão do motor boxer bávaro. Estas personalidades díspares são muito divertidas de explorar, e alteram a forma como enquadramos a sua condução. A R12 gosta de ser espicaçada ao passo que a Scrambler demonstra ser aquela falsa lenta que acaba por surpreender. As vibrações em ambas são parte da experiência, e assumimos ter de viver com elas.

O facto de ambas terem uma jante dianteira de 21” influencia o seu comportamento, obviamente. A sua agilidade nas mudanças de direção fica penalizada, mas a capacidade do trem dianteiro ao galgar as irregularidades torna-se deveras relevante. A sensação de estarmos aos comandos de motos indestrutíveis é comum a ambas, e a qualquer uma delas poderá ser considerada como companheira de tiradas maiores. Isto se pusermos o odómetro parcial da BMW a zeros, porque a ausência de indicador de combustível irá obrigar-nos a fazer contas. O que a Triumph descontextualiza esteticamente com o seu mostrador digital ganha claramente na quantidade de informação que disponibiliza. Entre elas não existe nada a apontar no capítulo da travagem, com potência e mordacidade mais do que suficientes, mas o “feeling” do acelerador da moto germânica dá-nos uma maior sensação de ligação com a roda traseira. E este pormenor é muito importante quando queremos levá-las por caminhos alternativos..

Com a noção de que a Triumph tem no outro modelo XE uma versão para quem quer levar o fora de estrada mais a sério, temos de considerar que à partida existe uma desvantagem clara nesta realidade. Basta olharmos para as suspensões e a postura mais trail da R12 vem ao de cima, e o único factor que equilibra estas diferenças são os pneus mais estradistas que equipam a unidade por nós testada. Sabendo que não podemos alongar-nos em demasia, gostámos do equilíbrio de massas da Scrambler e da sua honestidade em tentar acompanhar o que podemos chamar de uma versão retro de uma HP2 Enduro…

Em suma, mesmo desconsiderando a disparidade de extras que esta BMW apresenta, o seu valor base é sempre superior ao da Triumph. Na nossa opinião, justificadamente, porque é de facto um produto mais focado e com mais argumentos tecnológicos. A maior simplicidade aparente da Triumph demonstra um toque rústico muito próprio na sua entrega, e que joga a favor daquela coisa que não se mede, o chamado carácter. Mas se pensamos no purismo do conceito, uma nasce da primeira GS, uma sigla que definiu o significado “dual-sport” para a marca bávara, mas a outra mantém-se fiel ao espírito que Steve Mcqueen imortalizou, uma naked adaptada para fazer fora de estrada, honrando a definição de scrambler. E afinal de contas, nenhuma delas se afastou muito das suas promessas. Seja qual for a vossa escolha saibam o seguinte. Os restantes companheiros das duas rodas nunca poderão questionar o vosso bom gosto.

ficha técnica
BMW R12 G/S
Motor Bicilíndrico de cilindros opostos (Boxer) refrigerado a ar/óleo, duas arvores de cames à cabeça, quatro válvulas
Cilindrada 1170 cc
Potência Máxima 109 cv às 7000 rpm
Binário Máximo 115 Nm às 6500 rpm
Caixa Seis velocidades
Transmissão Por veio
Quadro Tubular
Suspensão Dianteira Forquilha invertida telescópica com 45 mm, afinação de pré carga da mola e do amortecimento nas fases de compressão e expansão, curso de 210 mm
Suspensão Traseira Monobraço oscilante de alumínio fundido com Paralever, com fixação direta e amortecimento de ação progressiva, afinação de pré carga da mola e do amortecimento nas fases de compressão e expansão, curso de 200 mm
Pneu Dianteiro 90/90 – 21”
Pneu Traseiro 150/70 – 17” (18” no pack enduro)
Travão Dianteiro Dois discos de 310 mm com pinças Brembo de pistão duplo
Travão Traseiro Disco de 240 mm com pinça Brembo de pistão duplo
Altura do Assento 860 mm
Depósito 15,5 L
Peso (em ordem de marcha) 229 kg
Garantia 5 anos
Importador BMW Portugal
PVP Desde 17.692€
PONTUAÇÃO
BMW R12 G/S
Estética 4
Prestações 4
Comportamento 5
Suspensões 5
Travões 4
Consumo 4
Preço 4,5
ficha técnica
Triumph Scrambler 1200
Motor Bicilíndrico paralelo arrefecido a líquido, 8 válvulas, SOHC
Cilindrada 1200 cc
Potência Máxima 89 cv às 11.000 rpm
Binário Máximo 110 Nm às 4.500rpm
Caixa Seis velocidades
Transmissão Por corrente
Quadro Aço tubular com calhas do berço do motor em aço
Suspensão Dianteira Forquilha invertida Marzocchi não ajustável, com 170 mm de curso
Suspensão Traseira Duplo Amortecedor Marzocchi com reservatório separado piggyback, regulável na pré-carga da mola, com 170 mm de curso
Pneu Dianteiro 90/90 – 21”
Pneu Traseiro 150/70 – 17”
Travão Dianteiro Dois discos de 310 mm com pinças Nissin de dois pistões
Travão Traseiro Disco de 255 mm com pinça Nissin
Altura do Assento 820 mm
Depósito 15 L
Peso (em ordem de marcha) 228 kg
Garantia 3 anos
Importador Multimoto
PVP Desde 15.495€
PONTUAÇÃO
Triumph Scrambler 1200
Estética 4
Prestações 4,5
Comportamento 4
Suspensões 4
Travões 4
Consumo 4,5
Preço 4




