Por Pedro Alpiarça
Juntávamo-nos em bando e desperdiçávamos tempo sem lhe darmos a mínima relevância. As ruas eram o nosso reino, e os nossos cavalos a pedal simbolizavam o primeiro grande desafio, em que a palavra liberdade ganhava uma dimensão maior. Imparáveis. Intermináveis.
E se os olhares eram cúmplices na aventura, o espírito de descoberta das capacidades individuais faziam-nos ser cada vez mais afoitos, cada vez mais próximos dos artistas de circo em duas rodas. As quedas e a subida na escala da mestria rimavam com um domínio temerário, típico da idade. Ganhámos todos uma bagagem única que mais tarde nos iria servir a confiança necessária para ter o que tanto desejávamos, o tal veículo a motor que imitávamos de forma infantil.
Hoje em dia nada mudou. Se as personagens são outras e a rua deu palco a estradas que ligam cidades, o sentimento prevalece. Continuamos miúdos montados nas máquinas que nos fazem felizes. Fanfarrões por natureza, companheiros na mais dura das ocasiões, com o mesmo desafio de querer estar à altura das nossas expectativas, mas com a mesma inocência de quem gere uma paixão.

A bagagem que ganhámos quando evitámos (ou não) o pior, está diretamente ligada à imagem do desespero quando tudo corria mal. Conhecemos as consequências, e seguimos com um punho direito aberto a caminho da nossa felicidade. Seres simples, que apenas querem partilhar sorrisos. As motos são um regresso ao básico, ajudam-nos a centrar aquele eixo que nos edificou.
“Éramos tão felizes e não o sabíamos…”
Quando acabar a minha jornada motociclística, que espero ser marcada pela sua longevidade, vou repetir esta frase. Porque um dos defeitos do homem é não ter noção da sua existência, das sortes que lhe cruzaram o rumo. Até lá, vejo no sorriso dos outros o espelho do meu. Perdoem-me a nostalgia, mas por estes dias faz 30 anos que descobri o mundo das motos, e por aqui…Está tudo igual.




