O império contra-ataca
O Império do Meio não se deixa dormir. Se nos últimos anos assistimos ao renascer do segmento das desportivas de média cilindrada, faria todo o sentido que as marcas chinesas não quisessem perder o comboio. E fazem-no com máquinas cheias de carácter e arrojo estético! Este comparativo entre a CFMOTO 675 SR-R e a Zontes 703 RR é para ler de punho trancado…
POR Pedro alpiarça • Fotos Paulo calisto

Efectivamente, e de modo bastante satisfatório, o mercado começa a perceber que já não podem existir preconceitos e dúvidas existenciais no que concerne à qualidade dos produtos vindos da China. A globalização forjou as parcerias e a engenharia ganhou horizontes planetários, partilhando componentes e soluções tecnológicas que criam pontes entre a Europa e o Oriente.
Estas duas motos que hoje estão frente-a-frente pertencem a um nicho de mercado, pelo menos no nosso país, onde é cada vez mais difícil rodar em pista apenas por diversão. Duas desportivas de média cilindrada, com potências a rondar os 90 cv, com motores tricilíndricos e carregadas de tecnologia por menos de 8 mil Euros, têm tudo para se tornarem no sonho molhado de qualquer jovem encartado com “sangue na guelra”. Sinceramente acredito que somos uns sortudos por vivermos nesta época de fervilhante produção motociclística. Basta olhar para elas com mais atenção para percebermos que querem ser levadas a sério, e com muita vontade de o demonstrar!
CFMOTO 675 SR-R
Toda a fisionomia desta pequena desportiva sugere velocidade. O desenho cuidado das suas linhas, os seus apontamentos aerodinâmicos e as suas formas compactas dão-lhe uma aura muito particular, entre o agressivo e o desafiante. O cuidado com os acabamentos é visível, e há uma forte sensação de qualidade geral.
Inclusivamente existem pormenores que nos fazem ficar impressionados.

Os dissipadores de calor no sistema de travagem são geralmente utilizados em motos com mais do dobro da potência e em conjunto com o amortecedor de direcção ajustável, são uma prova do exibicionismo técnico da 675.
O bloco tricilíndrico que a equipa gera energia cinética suficiente para nos pôr um sorriso nos lábios, misturando a desfaçatez de uma rápida subida de regime com uma linearidade bastante evidente. A sensação de leveza (afinal de contas a marca declara menos de 190 kg em ordem de marcha!) e de agilidade é-nos sugerida por uma ciclística muito competente (suspensões KYB totalmente ajustáveis nos dois eixos), pese embora o facto de ter uma ergonomia tipicamente desportiva, com avanços baixos e peseiras subidas. Nada de extremo, apenas mais física que a rival.

A nossa interacção com a máquina é feita sem grandes sobressaltos, muito graças ao bom tacto de todos os materiais e do design elegante do TFT. A CFMOTO cada vez mais se destaca pela qualidade das soluções apresentadas, dando a importância devida ao detalhe. Até os pneus CST que a equipavam surpreenderam pelo desempenho infalível nestas traiçoeiras condições invernais…



Zontes 703 RR
A Zontes sempre fez questão de abrir o envelope no que toca ao design dos seus modelos, e a 703 RR faz questão de não passar despercebida. O formato peculiar dos LEDs frontais (tipo cristal incrustado), dá o mote para todo um perfil desportivo cheio de personalidade. O quadro de dupla trave em Alumínio faz questão de estar bem exposto, assim como o bonito braço oscilante no mesmo material.
Debaixo do depósito de combustível podemos observar outro motor tricilíndrico, bastante semelhante na arquitectura, mas com uma forma de estar mais efusiva do que a rival. A Zontes dá a sensação de conseguir ganhar ímpeto mais rapidamente que a CFMOTO, com uma resposta contundente às solicitações do punho direito.

No capítulo ciclístico, encontramos suspensões Marzocchi totalmente ajustáveis em ambos os eixos (com ligação multi-link entre o monoamortecedor traseiro e o braço oscilante) e uma travagem de nome sonante, mas menos eficaz do que seria esperado. O comportamento dedicado e focado de todo o conjunto promete uma assertividade que não se coaduna com o tacto esponjoso da manete (sistema Brembo), retirando sensibilidade em momentos dinâmicos cruciais. Um exemplo do compromisso da marca em salientar a sua performance, está no tipo de pneu escolhido, uns agressivos Michelin Power 6…

A 703 RR acaba por se tornar uma moto com um convivência diária muito mais aprazível que a 675 SR-R, muito graças às suas cotas ergonómicas mais simpáticas para o corpo. Não fazendo dela uma turística, os pulsos agradecem o conforto e nós não perdemos o azimute da sua desportividade.
A nível de equipamento, estamos num nível superior à compatriota, elevando a qualidade de vida a bordo, muito embora a qualidade dos materiais seja ligeiramente inferior.



Desenhar trajectórias mas sem tirar tempos…
Agora que estão devidamente apresentadas, vamos então tentar segmentar este comparativo sem grandes rodeios, até porque o seu público alvo não tem grande paciência para prosas e poesias… Relembro-vos que estamos perante duas pequenas desportivas que são praticamente iguais no conceito e na forma, e os pormenores que as separam, merecem ser esmiuçados.
Comecemos então pela peça que lhes dá alma e lhes move o espírito, o seu bloco motriz. Existe uma ligeira diferença de valores com vantagem para a Zontes e esse facto nota-se em andamento. A 703 RR tem sempre um pouco mais de pulmão, sente-se mais responsiva ao longo de todo o regime de rotações. Estes tricilíndricos são muito divertidos de explorar, com uma entrega sempre linear e imediata. Neste paradigma de urgência, gostámos mais da sensação do acelerador da CFMOTO, (uma clara demonstração de evolução da sofistificação da marca) e também do feeling mecânico e sem delays do seu quick-shifter. Infelizmente este auxilio nas passagens de caixa apenas funciona no sentido ascendente nos dois modelos.

Quando observamos o seu comportamento em curva, as diferenças esbatem-se um pouco. Muito graças à sua ergonomia mais agressiva, a 675 SRR demonstra ter sempre um maior enfoque no eixo dianteiro. A sua precisão nas inserções é evidente, com elevados níveis de estabilidade em ângulo, mas a 703 RR aparenta ser mais ágil nas secções encadeadas. As suspensões Kayaba da CFMOTO são um pouco mais refinadas que as Marzocchi da Zontes, em que mesmo recorrendo a alguns ajustes, mostraram ser algo bruscas no início do curso. No capítulo da travagem existe uma clara falta de mordacidade no sistema da Brembo que equipa a Zontes, revelando-se esponjoso e pouco doseável. A CF não se fica rir, porque o seu ABS demasiado intrusivo também devia ser alvo de melhorias.
E assim entramos no campo da electrónica, em que mais uma vez as pequenas diferenças surgem para diferenciar estas grandes rivais. Servem-se ambas de ecrãs TFT para mostrarem as suas informações, e ambas possibilitam a ligação a um smartphone através de uma app dedicada. A Zontes inclusive permite a montagem de cameras, e fornece de origem punhos aquecidos, chave Keyless e dois mapas de motor. Sendo que nenhuma delas recorre ao cada vez mais comum IMU de 6 eixos, gostámos mais do refinamento da Zontes na intervenção das ajudas electrónicas. A CFMOTO até tem um botão dedicado ao controlo de tração, mas mesmo no nível mais baixo, revelou-se demasiado conservador.
Há umas décadas atrás, o produto chinês era caracterizado por uma manifesta falta de refinamento, e uns furos abaixo do que mercado oferecia. Hoje em dia, o paradigma alterou-se. Os preços permanecem extremamente competitivos, mas a qualidade subiu consideravelmente. Estes dois modelos não ficam aquém de qualquer japonesa ou italiana, seja pelo arrojo estético, seja pelo seu comportamento dinâmico. Existe um forte investimento nas colaborações com outros gigantes da indústria dos componentes, como podemos observar nos nomes Brembo, Kayaba, Marzochi, etc… Por menos de 8000€, estas pequenas grandes desportivas vão fazer virar muitas cabeças. Para responder à maior sofisticação da CFMOTO, a Zontes afirma-se com sensações mais cruas na sua condução, uma vantagem para quem gosta de perceber os limites da máquina. Uma coisa é certa, elas são uma mais valia para todos os que gostam de sensações fortes, e vieram apimentar de forma inegável o nosso mercado.
ficha técnica
CFMOTO 675 SR-R
Motor Tricilíndrico em linha, 4 tempos, DOHC, arrefecimento por líquido
Cilindrada 675 cc
Potência Máx. 90 cv às 11000 rpm
Binário Máx. 68 Nm às 8250 rpm
Caixa Seis velocidades, manual
Transmissão Por corrente
Quadro Tubular em alumínio
Suspensão Dianteira Forquilha invertida de 41 mm, totalmente ajustável, curso 130 mm
Suspensão Traseira Amortecedor Monoshock central, totalmente ajustável, curso de 130 mm
Travão Dianteiro Pinças J.Juan de montagem radial com quatro pistões e dois discos de 310 mm
Travão Traseiro Disco de 240 mm com pinça de um pistão
Pneu Dianteiro 120/70-17”
Pneu Traseiro 180/55-17”
Altura do Assento 810 mm
Depósito 15 L
Peso (ordem de marcha) 189 kg
Cores Branco, preto e cinzento
Garantia 3 anos
Importador CFPT – Veículos e acessórios
PVP 7590€
PONTUAÇÃO
CFMOTO 675 SR-R
Estética 4
Prestações 4
Comportamento 4,5
Suspensões 4,5
Travões 4
Consumo 4,5
Preço 4,5
ficha técnica
Zontes 703 RR
Motor Tricilindrico em linha a 4 tempos, DOHC, arrefecimento por líquido
Cilindrada 699 cc
Potência Máx. 95 cv às 11.500 rpm
Binário Máx. 76 Nm às 8.500 rpm
Caixa Seis velocidades, manual
Transmissão Por corrente
Quadro Dupla trave em Alumínio
Suspensão Dianteira Forquilha invertida Marzocchi totalmente ajustável
Suspensão Traseira Mono Amortecedor Marzocchi totalmente ajustável
Travão Dianteiro Dois discos semi-flutuantes de 310 mm com pinças Brembo de quatro pistões
Travão Traseiro Disco e pinça flutuante
Pneu Dianteiro 120/70-17”
Pneu Traseiro 180/50-17”
Altura do Assento 820 mm
Depósito 16 L
Peso (ordem de marcha) 203 kg
Cores Vermelho e azul
Garantia 3 anos
Importador Terra Bastos
PVP 7799€
PONTUAÇÃO
Zontes 703 RR
Estética 4
Prestações 4,5
Comportamento 4
Suspensões 4
Travões 3,5
Consumo 4,5
Preço 4,5




