Comparativo BMW R 1300 RT vs Ducati Multistrada V4s vs Yamaha Tracer 9 GT+
Horizontes largos
A sofistificação de um conceito tem o seu devido valor. Geração após geração, assistimos ao desenvolver de características desenhadas para atingirem um zénite, o expoente máximo na sua categoria. Porém, e este é o verdadeiro significado de concorrência, o mercado revela opções não menos válidas para o propósito. Neste caso falamos de turismo, das longas horas passadas agarrados a um guiador com um objetivo. Chegar mais além nas melhores condições possíveis. A BMW R 1300 RT surge aparentemente intocável neste paradigma. Mas será que uma Yamaha Tracer 9 GT+ (uma sport touring de raiz) e uma Ducati Multistrada V4s (uma maxi-trail polivalente) conseguem fazer-lhe frente no intento? Mais do que o tamanho da carteira, vamos questionar-lhes a aptidão para a mesma realidade. Vislumbrar horizontes largos.
POR Pedro Alpiarça • Fotos Paulo Calisto

A mais recente geração da poderosa BMW R 1300 RT revelou uma evolução surpreendente no modelo. A bem amada germânica está agora mais focada, aproveitando o Boxer de mil e trezentos centímetros cúbicos e novas soluções ciclísticas que lhe deram um renovado aprumo desportivo. Contudo, a sua personalidade turística continua inalterável, e a ausência de rivais directos demonstra isso mesmo. Assim sendo, fomos enquadrá-la junto a duas referências no mercado, uma Sport-Touring com jante de 17 e uma maxi-trail de 19”. Estas três motos montam um arsenal tecnológico equiparável, e muito embora os valores por elas pedidos sejam bastante diferentes, prometem exatamente o mesmo. Muitos quilómetros de conforto e sofisticação aos seus comandos. Este é mais um daqueles comparativos diferentes que vocês tanto adoram.
BMW R 1300 RT
Com o redesenho da mais bem sucedida plataforma boxer, a GS, a sólida viajante com o mesmo motor, teria de ser reformulada. O ganho óbvio de um bloco motriz mais moderno, foi acompanhado da respectiva desenvoltura ciclística. O quadro tem uma rigidez superior, e a magia da suspensão telelever e paralever sofrem os efeitos positivos de um sistema electrónico cada vez mais inteligente.

A dimensão e o volume desta moto não deixam ninguém indiferente, mas quando se encontra em movimento, o baixo centro de gravidade e a leveza da sua direcção impressionam pela agilidade. A RT esconde ainda uns truques na manga quando lhe pedimos mais emoção. No modo Dynamic a suspensão altera o seu perfil para induzir uma transferência de massa no eixo dianteiro, dando-lhe acutilância e maior precisão. Um navio almirante transformado em barco de regata.



A qualidade de vida a bordo continua a ser uma referência. Não existem dúvidas que estamos aos comandos de uma máquina especial, quando simplesmente ignoramos as condições exteriores. Os elementos não nos perturbam, o asfalto torna-se aveludado e os quilómetros passam por nós sem noção, sem respeito pelo cansaço. A soberba é tão grande que quase temos vontade de acenar ao povo, num claro devaneio provocado pela experiência inebriante. Luxo em duas rodas com requinte apimentado.
Ducati Multistrada V4s
A última grande transformação da moto mais versátil da casa de Bolonha, foi aquando do aparecimento do bloco V4. O Granturismo, assim apelidado, mostrou ter uma capacidade única de conseguir agregar várias personalidades, suave nos baixos regimes, contundente nos médios e explosivo quando se aproxima do seu limite. Soluções derivadas do MotoGP (como a cambota contra rotante), moldam-lhe o comportamento dinâmico de forma indelével.

A sua arquitectura de maxi trail favorece-lhe a polivalência. Sendo a única deste teste que tem um mapa específico para o fora de estrada, a Ducati acaba por se tornar um pacote completo. O guiador largo e a jante dianteira de 19” seguem este registo, apresentando um neutralidade muito fácil de explorar e inspiradora de confiança. Até a linearidade do motor ajuda nesta equação.



Esta mais recente versão da Multistrada, conta sobretudo com um maior aprumo tecnológico. O azimute é claro, tornar a máquina mais acessível, mais fácil de explorar, e na nossa opinião o objectivo é claramente atingido. Existem poucas motos que conseguem ter um equilíbrio tão grande nos mais diversos cenários. E este elogio poderia soar a algo aborrecido, mas o que sucede é justamente o contrário. A paixão que a Ducati vende, consegue estar bem latente na sua personalidade.
Yamaha Tracer 9 GT+
A Tracer 9 GT + é o porta estandarte da Yamaha no que toca a engenharia motociclística dedicada ao turismo. A sua evolução atingiu o zénite de refinamento e tecnologia, mas a sua origem não consegue ser camuflada. Por detrás dos radares, do vidro elétrico e dos 10 níveis de aquecimento de punhos, está uma plataforma patrocinada por um irrequieto CP3. A sua personalidade é mais Sport do que Touring, e não há nada de mal nisso, antes pelo contrário.

Com uma comunicação muito bem calibrada, todos os inputs do condutor são transformados em sensações fortes, sem grandes rodeios. O esforço da marca de Iwata em colocar mais “penas na almofada”, tem como objetivo apaziguar os ímpetos esquizofrénicos de um motor altamente nervoso. Ganha-se qualidade de vida a bordo, e encontra-se alguma paz de espírito quando optamos por ritmos mais tranquilos.



Se por algum motivo podemos cair na falácia de pensar que a Tracer se coloca em bicos dos pés para acompanhar as outras duas, é puro engano. O seu carácter vincado é genuíno e as soluções que entrega são desenhadas para o conforto de utilização, sempre em prol do condutor. Arriscamos mesmo a dizer, que de todas, foi a que mais evoluiu nesse sentido.
A Viagem mais longa
A parte mais difícil deste comparativo será explicar-vos que estes três modelos representam diferentes dores na nossa carteira. Basta observar que a RT em teste custa quase o dobro da Tracer, e que a Ducati presente tem em falta o pacote touring, em que as malas, o descanso central e outras comodidades terão de ser acrescentadas. O factor nivelador reside na função turística comum às três, a sua apetência para percorrer longas distâncias com conforto e performance associadas.

Comecemos então pelos diferentes tipos de motores apresentados, um Boxer, um V4 e um tricilíndrico. Se imaginarmos uma escala ascendente, temos os 119 cv da Tracer, os 145 da RT e os estupendos 170 cv da Multistrada, mas os números não contam toda a história. A relação peso potência da BMW e da Yamaha é praticamente igual, sendo que a maneira como a entregam, completamente diferente. O Boxer, mesmo estando cada vez mais sofisticado, continua a ser um monstro de binário, pouco subtil e cheio de carácter. O CP3 é um motor alegre e divertido, com uma resposta quase imediata às solicitações do punho direito. Noutro patamar encontramos o V4, uma verdadeira locomotiva, sempre pujante e com uma linearidade ímpar. As suas diferentes personalidades moldam a maneira como aceitamos passar tempo com elas. Se na Tracer há sempre um nervosismo latente, na Multi há uma reserva de energia tão grande que acabamos por relaxar, confiantes na sua explosão. A RT dá-se ao luxo de gozar com as outras duas nos médios regimes, muito por culpa dos 149 Nm de binário. Querem adjectivos? A Yamaha é explosiva, a RT é elástica e a Ducati é interminável.

O enquadramento destes motores na ciclística, também dá azo a considerações muito interessantes. De todas a mais honesta, no sentido de não nos enganar, é a Sport Touring da Yamaha. Independentemente do seu assento confortável e da boa proteção aerodinâmica, a sua posição de condução acaba por ser mais de ataque, com as peseiras ligeiramente recuadas e o corpo mais projectado para a frente. Tornando-se ligeiramente mais cansativa nas tiradas maiores, a recompensa surge quando a estrada fica mais revirada. A rainha dos horizontes largos é a RT, criando uma bolha de bem estar absolutamente estupenda. A possibilidade de termos um sistema de áudio integrado e aquecimento de mãos e costas para o passageiro são prova de estarmos noutro nível. A Ducati vive bem no meio destas duas realidades, sendo que a suspensão skyhook desta versão S roça o esoterismo, como se sentisse o asfalto em vez de o analisar. Das três é aquela que melhor consegue alterar a sua atitude consoante o modo escolhido, reafirmando a sua polivalência sofisticada.

E quando falamos em sofisticação, temos de analisar os cérebros electrónicos presentes nestas máquinas. As três apresentam o melhor que o mercado tem em termos de segurança activa, com os seus radares a servirem cruise-control activo, detecção de ângulo morto e de colisão iminente. Navegação por mapa disponibilizada nos enormes ecrãs TFT, e todas as ajudas comandadas pelas IMUs de 6 eixos, serão itens que se tornaram indispensáveis para conseguirmos sobreviver com a borracha virada para baixo. A Ducati e a BMW ainda conseguem orquestrar o truque de magia de reduzir a altura ao solo quando estão paradas, mas apenas a moto bávara e a japonesa disponibilizam uma caixa semi-automática. A italiana vinga-se desligando a bancada de cilindros anterior para efeitos termodinâmicos e de consumo a baixas velocidades. Sejamos sinceros. Cada sistema tem os seus trejeitos, e a nossa interacção com os mesmos requer habituação, não existindo um destaque absoluto de nenhum deles. Vivemos numa época em que a inteligência artificial é um fenómeno incontornável, e estas ajudas dão-nos a sensação de estarmos cada vez mais próximos de um veículo autónomo.

Se tivéssemos de recriar um cenário onde poderíamos sublinhar as suas diferenças, seria uma viagem directa aos picos de Europa. Aos comandos da Yamaha Tracer 9 GT + iríamos directos para o hotel, para podermos acordar cedo no dia seguinte com intuito de arredondarmos os pneus em todos os desfiladeiros que encontrássemos. Na BMW R 1300 RT, passávamos os picos e só dormíamos em Bilbao, porque mais 500 km não fazem assim tanta diferença quando viajamos em classe executiva. Na Ducati Multistrada V4S tínhamos um problema. Ou acompanhávamos a Yamaha na procura do apex seguinte, ou seguíamos para o miradouro mais próximo, na esperança de que o caminho de acesso à foto perfeita fosse de terra, só para acrescentar a palavra “aventura” à viagem. Um produto bastante mais completo do que sua ascendência de trail possa prever.
Estas são três hipóteses de viver o mundo das duas rodas sem medo de percorrer grandes distâncias. A escala das suas capacidades não é necessariamente proporcional ao valor por elas pedido, mas o nível de perfeição com que se dedicam à arte de viajar tem de ser justificado. Quando acabar a chuva, façam-se à estrada!
ficha técnica
BMW R 1300 RT
Motor Bicilíndrico Boxer, 4T, refrigerado por líquido
Distribuição Duas árvores de cames à cabeça, quatro válvulas
Cilindrada 1300 cc
Potência Máxima 145 cv às 7750 rpm
Binário Máximo 149 Nm às 6500 rpm
Versão limitada A2 Não
Embraiagem Multidisco em banho de óleo, deslizante
Final Por veio
Caixa 6 velocidades
Quadro Estrutura tubular em aço
Suspensão Dianteira EVO Telelever, totalmente ajustável
Suspensão Traseira EVO Paralever, amortecedor central ajustável
Travão Dianteiro Dois discos, 310 mm, pinça radial Brembo de 4 pistões, ABS
Travão Traseiro Disco, 285 mm, pinça de 2 pistões, ABS
Pneu Dianteiro 120/70-17”
Pneu Traseiro 190/55-17”
Comp. Máximo 2229 mm
Largura Máxima 971 mm
Distância entre eixos 1500 mm
Altura Máxima 1387 mm
Altura do Assento 820/840 mm
Depósito 24 litros
Peso (a cheio) 281 kg
Cores Branco, azul, preto e Option 719
Garantia 5 anos
Importador BMW Motorrad Portugal
PVP 25 540€
ficha técnica
Ducati Multistrada V4s
Motor V4 Granturismo a 90º, 4T, refrigerado por líquido
Distribuição Duas árvores de cames à cabeça, quatro válvulas
Cilindrada 1158 cc
Potência Máxima 170 cv às 10 750 rpm
Binário Máximo 125 Nm às 8750 rpm
Versão limitada A2 Não
Embraiagem Multidisco em banho de óleo, deslizante
Final Por corrente
Caixa 6 velocidades
Quadro Monocoque em alumínio
Suspensão Dianteira Forquilha invertida 50 mm, totalmente ajustável
Suspensão Traseira Monoamortecedor, totalmente ajustável
Travão Dianteiro Dois discos, 330 mm, pinças radiais Brembo 4 pistões, ABS
Travão Traseiro Disco, 280 mm, pinça de 2 pistões, ABS
Pneu Dianteiro 120/70-19”
Pneu Traseiro 170/60-17”
Comp. Máximo –
Largura Máxima –
Distância entre eixos 1566 mm
Altura Máxima –
Altura do Assento 840/860 mm
Depósito 22 litros
Peso (a cheio) 253 kg
Cores Vermelho, preto, cinza
Garantia 4 anos
Importador Ducati Ibérica
PVP 25 300€
ficha técnica
Yamaha Tracer 9 GT+
Motor Tricilíndrico em linha, 4T, refrigeração líquida
Distribuição Duas árvores de cames, 4 válvulas
Cilindrada 890 cc
Potência Máxima 119 cv às 10 000 rpm
Binário Máximo 93 Nm às 7000 rpm
Caixa 6 velocidades
Final Por corrente
Quadro Tipo diamante em tubos de aço
Suspensão Dianteira Forquilha invertida, ajustável,130 mm de curso
Suspensão Traseira Monoamortecedor ajustável,131 mm de curso
Travão Dianteiro Dois discos de 298 mm, pinças de 4 pistões, ABS
Travão Traseiro Disco de 267 mm, pinça de um pistão, ABS
Pneu Dianteiro 120/70-17”
Pneu Traseiro 180/55-17”
Altura do Assento 845/860 mm
Depósito 19 L
Peso (em ordem de marcha) 232 kg
Cores Azul e preto
Garantia 3 anos
Importador Yamaha Motor Portugal
PVP Desde 19.100€



