Há viagens que começam antes do motor aquecer e esta foi uma delas. O plano era simples, poucos dias, muito território e um objectivo bem definido, conhecer o Gerês e terminar com o corpo mergulhado nas águas quentes de Caldas de Lobios. Para maximizar o tempo útil existe sempre o chamado dia zero, sair depois do trabalho, fazer quilómetros sem glamour e acordar já longe de casa, pronto para viajar a sério.
POR Rui Domingues Fotos: Rui Domingues
O dia zero arrancou em Lisboa sem grandes novidades. Estradas económicas, ritmo constante e a Mealhada como ponto de pernoita. Não houve histórias para contar, mas houve algo mais importante, a sensação de que no dia seguinte o mapa já estaria bem mais curto.

Dia 1
O primeiro dia começou cedo, com ar fresco e a decisão de seguir maioritariamente por estradas nacionais. Ponte de Lima foi a primeira paragem, a ponte romana continua a impressionar pela escala e pela serenidade com que atravessa os séculos. Seguiu-se Arcos de Valdevez, onde um naco de carne cumpriu a sua missão antes de entrar no território que mais prazer dá a quem viaja de moto, as estradas municipais e regionais.

Pela M 1289 surgiu um dos grandes momentos da viagem, o miradouro dos Socalcos, com o Rio Vez lá em baixo e uma paisagem que obriga a desligar o motor e simplesmente olhar. Contornando a Serra do Soajo chegámos ao Santuário de Nossa Senhora do Penedo, um local impressionante tanto pela localização como pela quietude. Houve ainda tempo para uma paragem nos lindíssimos espigueiros do Soajo e logo de seguida no Castelo de Lindoso, granito, história e fronteira, antes de terminar o dia na Pousada da Juventude do Gerês, porque a juventude não se mede pela idade.

Dia 2
O segundo dia acordou frio, daquele frio que se sente nas mãos mesmo com luvas. O percurso passou pela barragem da Caniçada, pelo Santuário de São Bento da Porta Aberta, pelo miradouro da Pedra Bela e por várias cascatas já visitadas noutras viagens, sempre diferentes porque a luz nunca é a mesma. Cruzámos depois a fronteira para finalmente entrar nas águas quentes de Lobios. A dificuldade não está em entrar por causa do frio, mas exatamente pelo contrário, a temperatura elevada exige calma e respeito. O tempo ali passa devagar, até ser necessário regressar à estrada ainda com luz do dia.

Seguimos então para Pitões das Júnias, já no coração do Parque Nacional da Peneda Gerês. A aldeia recebeu-nos em silêncio, com aquele ambiente que só os lugares autênticos conseguem oferecer. Foi ali que o dia terminou, com a sensação de estar exatamente onde se devia estar.

Dia 3
O terceiro dia trouxe o regresso. No dia seguinte há trabalho e a nossa casa fica a cerca de quinhentos quilómetros. Enquanto foi possível seguimos por estradas nacionais, prolongando o prazer da viagem até ao centro do país. A partir daí o caminho mais rápido, porque todas as viagens acabam, mas ficam sempre as memórias e a vontade de voltar.
Notas da rota
– Melhor época para viajar, primavera e início do outono.
– Mesmo no verão as manhãs podem ser frias, especialmente em altitude.
– Dar prioridade às estradas municipais e regionais, são mais lentas mas muito mais recompensadoras.
– Reservar alojamento com antecedência em épocas altas.
– Levar sempre margem de tempo para parar, o Gerês pede isso.

Curiosidades
– As águas quentes de Lobios são de origem geotérmica e podem ultrapassar facilmente os quarenta graus.
– Pitões das Júnias foi durante séculos uma das aldeias mais isoladas da região.
– O Castelo de Lindoso teve um papel fundamental na defesa da fronteira norte.
– O Parque Nacional da Peneda Gerês é a única área protegida com este estatuto em Portugal.




