Entre muralhas, montanhas e história
Há viagens que não se medem apenas em quilómetros. Medem-se em silêncios, em curvas, em paisagens e naquela sensação difícil de explicar quando sabemos que estamos exatamente onde queremos estar. Esta foi uma dessas viagens. Cinco dias, uma moto, estradas secundárias e um objetivo claro, conhecer
San Lorenzo de El Escorial e explorar a Sierra de Guadarrama.
POR Rui Domingues Fotos: Rui Domingues
Dia 1
Destino: El Barco de Ávila
O primeiro dia de viagem ficou reservado para a saída de Lisboa com destino a El Barco de Ávila. A saída da capital portuguesa fez-se, como sempre, por estradas nacionais. As Portas de Ródão continuam a ser um dos cenários mais impactantes de Portugal e o Parque Natural do Tejo Internacional confirma que viajar devagar é uma escolha acertada. A travessia da fronteira em Salvaterra do Extremo marca o início de um território diferente, mas familiar.
O Vale de Jerte voltou a cumprir o seu papel. Curvas suaves, enquadramentos naturais e aquela sensação constante de que cada quilómetro vale a pena. El Barco de Ávila recebeu-nos ao final do dia, sereno e acolhedor.

Dia 2
Ávila e o caminho lento
Ávila impõe respeito. As muralhas dominam a cidade e convidam a caminhar sem pressa. É impossível não sentir o peso da história em cada pedra. A tarde foi dedicada ao caminho mais lento até San Lorenzo de El Escorial, aquele que os mapas quase escondem, mas que os motociclistas procuram.
A chegada ao destino confirmou a escolha.

Dia 3
Guadarrama em estado puro
O mosteiro estava encerrado. O plano mudou, a viagem ganhou. A Sierra de Guadarrama abriu-se em toda a sua dimensão. Navacerrada mostrou a sua faceta alpina. Rascafria revelou-se como uma das vilas mais bonitas de toda a rota, autêntica, simples e elegante.

O dia terminou no mirador Ángel Nieto, na M-505. Um local que é mais do que um miradouro. É uma homenagem a um piloto que marcou gerações. Sete vezes campeão do mundo, Ángel Nieto fez parte da minha infância, entre comandos, ecrãs verdes e jogos no Spectrum 48K. Estar ali foi fechar um pequeno ciclo pessoal.
Dia 4
O peso da história
O Mosteiro de San Lorenzo de El Escorial revelou-se finalmente. Imponente, austero, monumental. Não é apenas um edifício, é uma afirmação de poder, fé e política. Cada espaço transmite grandeza.

Antes, ainda houve tempo para visitar o Vale dos Caídos. A maior cruz do mundo domina a paisagem e uma basílica monumental encontra-se escavada no interior da montanha. Um local que impressiona pela escala e pela carga simbólica. O dia terminou em Consuegra, com os moinhos a recortarem-se contra um pôr do sol perfeito. Um daqueles momentos que justificam toda a viagem.
Dia 5
Regresso com o coração cheio
O último dia foi dedicado ao regresso. Mais direto, mais rápido, mas com outra leveza. Porque quando a viagem é boa, o regresso nunca é pesado. Fica a certeza simples: o mundo é pequeno, está cheio de lugares para descobrir e muitos deles começam logo ao nosso lado.

Notas da rota
– As estradas nacionais em Portugal oferecem mais prazer do que muitas autoestradas.
– O Vale de Jerte é obrigatório em qualquer viagem pela região.
– A Sierra de Guadarrama é uma das melhores zonas de condução para motociclistas em Espanha.
– A M-505 até ao mirador Ángel Nieto é curta, mas memorável.

Curiosidades
– Ávila possui mais de dois quilómetros de muralha medieval praticamente intacta.
– O Mosteiro de El Escorial foi construído no século XVI por ordem de Filipe II.
– A cruz do Vale dos Caídos tem 150 metros de altura.
– Ángel Nieto venceu 13 campeonatos do mundo, apesar de ser sempre recordado como 12+1 devido à sua superstição.



