POR Pedro Alpiarça
Quando os vossos olhos percorrerem estas linhas, o Rally Dakar 2026 estará concluído. Os consagrados terão os seus louros, e os finalistas a sua recompensa depois de quase 8.000 km percorridos ao longo de 12 dias, mas muitos não conseguirão chegar ao fim, deitando por terra todo um sonho e meses de preparação.
Sendo que existe uma enorme componente competitiva por parte das grandes equipas, o número de pilotos amadores é significativo, alimentados pela paixão pelo deserto e uma vontade férrea de superação pessoal. Se nos primórdios do evento, o desconhecido fazia parte da aventura, nos dias que correm ninguém vai ao engano, levando na bagagem um enorme espírito de sacrifício.
D e todas as diferentes versões que este Rally assumiu, a original foi a que deixou mais saudades. Mesmo que a travessia europeia fosse perdendo protagonismo, a entrada no continente africano prometia elevar o desafio, desde as paisagens pedregosas de Marrocos, ao mar de dunas da Mauritânia, as histórias que esculpiram as estátuas dos primeiros heróis, foram erguidas nesses palcos.
Mas para mim, essa não foi a minha época favorita.

Foi no continente sul americano que assistimos ao espectáculo maior, à extrema diversidade de cenários, ao expoente máximo de superação em condições absolutamente díspares. Os Andes eram palco de passagens em altitude onde o clima imprevisível e a falta de oxigénio do Altiplano reclamavam as suas vítimas. As passagens a vau nos vales circundantes, criando armadilhas de lama intransponíveis, o salar de Uyuni com as suas imagens de céu espelhado, a descida das dunas de Iquique em direcção ao mar depois de atravessarem o deserto mais seco do mundo, o Atacama! Um conjunto de contextos únicos onde as máquinas e homens sofriam, e os diferentes povos (visto que a caravana cruzava várias fronteiras) rejubilavam com a sua passagem.
Dos muitos portugueses que deixaram a sua marca na prova motorizada mais dura do mundo, um nome surge como incontornável, gigante na sua atitude e resiliência , e com um destino trágico que o elevou ao estatuto de lenda. Paulo Gonçalves deixou-nos há seis anos, mas marcou de forma indelével o desporto motorizado nacional. Hoje em dia os nossos políticos fazem analogias sobre dedicação e esforço tendo como referência jogadores de futebol…
Esta prova está cada vez mais controlada, não só a nível do território onde decorre a aventura, mas também a nível do esforço proposto. E não existe diferença entre o piloto de fábrica que vai a fundo para ganhar minutos em dias, ou o Male Moto que gere a sua mecânica (e a da máquina…) para não deitar tudo a perder, ambos são heróis, e ambos se ajudarão mutuamente em caso de aflição. O espírito do Dakar devia servir de exemplo para vencer o egoísmo reinante que floresce nos dias que correm. O limite humano é uma fasquia imposta pelo Deserto, e os que tentam superar o escrutínio da sua vontade, têm lugar reservado no Olimpo.




