Se tens na garagem uma moto que se enquadra na denominação trail, não deves renunciar a todas as possibilidades de utilização que ela te oferece. O off-road está mesmo à tua mão e caso nunca te tenhas aventurado por esses caminhos, ou que a tua experiência nesse campo seja muito curta, ou até que a ideia de sair para a terra te provoque suores frios e alguns receios, este artigo tem como objectivo ajudar-te a desfrutar o melhor possível dessa experiência de forma plena, com maior grau de segurança e confiança.
POR CARLOS LARRETA • Fotos ISRAEL GARDYN

Quem não está habituado a este tipo de motos, muitas vezes demonstra receio quanto à sua condução fora de estrada. Mas a verdade é que, agindo com prudência e pensando muito bem no que estamos a fazer, evitando correr riscos desnecessários e tendo em conta uma série de recomendações, a prática do off-road aos comandos de uma trail, abre-nos as portas a todo um novo mundo de sensações extremamente prazerosas, que como dissemos, não há motivos absolutamente nenhuns para renunciar. No entanto, moderação, condução suave e defensiva, evitar desafios que à partida possam superar as nossas próprias capacidades técnicas, são meio caminho andado para que as coisas corram pelo melhor. Mas há mais pormenores e aspectos a ter em conta, que vamos abordar de seguida…
TENSÃO DA CORRENTE
A verificação frequente da tensão da corrente, nas motos que utilizam este tipo de transmissão secundária, é tarefa obrigatória para todos os utilizadores. Mas se este mesmo utilizador está decidido a desfrutar dos prazeres das duas rodas fora do asfalto, então esses cuidados passam a ser redobrados. Em primeiro lugar porque as correntes utilizadas nas motos trail atuais tendem a demonstrar uma apetência indesejável em afrouxar quando submetidas a uma utilização off-road mais exigente.

Com algumas das nossas motos de teste, sobre tudo as maxi-trails de maior potência, temos reparado que muitas vezes quando regressamos a casa, a corrente de transmissão está demasiado frouxa, mesmo depois de apenas uma hora de utilização mais exigente. Há que voltar a ajustar a corrente antes de sair para o campo e repetir o processo todas as vezes que seja necessário fazê-lo. Há que ser meticuloso neste aspecto em particular, assim como nas rotinas de limpeza e lubrificação da corrente porque a condução off-road obriga-nos a maior esmero e frequência nesses processos uma vez que o pó, lama e outros detritos são autênticas armas de destruição massiva das transmissões. Um conselho: se for necessário fazer a troca da corrente e manténs a intenção de continuar a dar uma utilização dupla à tua moto, então o melhor é substituir a corrente por outra de melhor qualidade. Pode parecer caro no imediato, mas podes ter a certeza de que vai ser um investimento que rapidamente se vai pagar a ele próprio. No entanto, não substitui os cuidados redobrados que já enumerámos em cima.
GUIADOR
No dia a dia na cidade, a rolar por entre o trânsito caótico, provavelmente nunca sentirás necessidade de rodar de pé. Mas no campo o caso muda de figura e conduzir em pé permite-nos não só ter maior controlo sobre a moto, como também reduzir a exigência física, principalmente para as costas. Se até este momento não te aventuraste no off-road, certamente que a posição do guiador da tua moto é a mais adequada para o efeito, para rodar sentado e pouco mais. Se depois de ler este artigo decidires aventurar-te e dar nova razão à tua existência, é possível que tenhas que afrouxar uns quantos parafusos para alterar a posição do guiador.

Mas não será necessário pegar nas ferramentas cada vez que sais do asfalto para a terra: basta chegar a um compromisso intermédio que te permita rodar de forma confortável em ambos os cenários. Aqui não existem fórmulas certas, terás que fazer ajustes, ver se te sentes confortável em ambos os cenários e ir ajustando até encontrares o compromisso certo. Também é verdade que em alguns modelos uma simples alteração de posição não vai resolver o problema e a solução para por instalar uns elevadores (risers) no guiador.
MANETES
Não te esqueças, quer alteres a posição do guiador ou não, a posição das manetes é algo que deves ter em consideração de forma independente, uma vez que a incorreta colocação destas pode significar fadiga prematura nos antebraços e, ao mesmo tempo, uma certa perda de funcionalidade. Como no caso do guiador, a prioridade é conduzir de forma cómoda e segura, mas, de uma forma geral, diríamos que no off-road é comum usar as manete um pouco mais para baixo que em estrada. Um detalhe: no âmbito do off-road, as quedas a baixa velocidade são em muitos casos meras escorregadelas ou erros infantis que podem não só comprometer a integridade dos pilotos, mas também resultar na típica quebra das manetes.

Em vez de as apertar demasiado, podes ajustar só o suficiente para que não saiam do lugar e assim, em caso de queda elas podem rodar sobre o guiador e evitar que se partam facilmente. Mas, pensando precisamente nas quebras inevitáveis, muitas manetes que podemos encontrar nas trail mais modernas incorporam um corte que, por assim dizer, limita a extensão de uma eventual quebra, fazendo com que sobre uma parte da manete suficiente para que continues a conseguir operar a mesma até à sua substituição.
PROTEÇÕES DE MÃOS
Conduzir uma moto fora de estrada sem proteções de mãos é, entre outras coisas, estar exposto a um risco grande de bater num ramo que inesperadamente se cruze no nosso caminho. Por outro lado, dado que em estrada também nos protegem as mãos contra o frio, falamos de um componente que não deveria faltar em nenhuma trail. Há fabricantes que não entendem desta forma e assim, das últimas motos trail que testámos, vem-nos à memória um par delas como a Kove 800X Pro ou a Royal Enfield Himalayan 450, para citar alguns exemplos, que vêm de série sem este componente instalado.

Para aqueles que estão a ponderar a sua compra, saibam que além das simples proteções de mãos em plástico, há outras mais rígidas, com uma estrutura que normalmente é de alumínio que se fecha na parte exterior e oferece proteção acrescida perante eventuais impactos. Bom exemplo disso são as que equipam a BMW GS 900.
ABS
A condução off-road nas primeiras trail equipadas com ABS que chegaram ao mercado era um autêntico desafio. Não tinham a opção de desativar o sistema e este, por outro lado, atuava de forma tão interventiva, que em muitos casos, tocar nos travões era quase o mesmo que não o fazer: a entrada em funcionamento do ABS era tão imediata como radical, de forma que os metros passavam e passavam e não havia forma de parar a moto.

Um autêntico perigo. Mas com a evolução da tecnologia surgiram mecanismos de ação infinitamente mais progressiva, menos intrusiva e hoje em dia são muitos os modelos que nos brindam com a possibilidade de desativar o ABS tanto na roda traseira (o mais comum), como na roda dianteira e outros tantos que incorporam uma resposta específica para fora de estrada, ao nosso alcance com apenas um toque num botão e selecionar o modo de condução off-road. Sobre as vantagens de desligar por completo o ABS traseiro não há dúvidas, mas no que toca a prescindir por completo do dianteiro já irá depender do tipo de terreno e também da própria capacidade de resposta do ABS e do travão – os que são mais vocacionados para a estrada, muito enérgicos, tendem a fazer bloquear a roda com relativa facilidade na terra. Em caso de dúvida, é sempre melhor seguir com ABS do que sem ele.
POUSA-PÉS
Já aqui falámos de que a condução off-road vai exigir mais tempo de pé do que sentados, pelo que uns pousa-pés mais largos que o normal (normal para uma moto tipicamente de estrada) vão-nos oferecer um maior grau de conforto e segurança. Tão importante quanto as dimensões dos pousa-pés, é a aderência que estes oferecem, sobre tudo em condições de chuva, lama ou nas travessias de rios.

O comum será encontrar uma peça metálica com dentes que sustenta outra de borracha, a qual devemos retirar quando a ideia é sair do asfalto, porque o nível de aderência é muito inferior, não deixam espaço para conduzir com botas de TT e porque uma vez molhados, fazem com que os nossos pés escorreguem. Dependendo da marca e dos modelos, essa borracha pode ser retirada à mão, ou mediante um parafuso. Em qualquer dos casos, é uma operação simples e rápida.
PRESSÃO DOS PNEUS
Se é obrigatório retirar as borrachas dos pousa-pés, mais ainda é verificar se temos a pressão correta nos pneus, antes de iniciar a nossa aventura fora de estrada. As pressões recomendadas pelo fabricante para circular em estrada são inapropriadas para fazer um off-road seguro, por muito que prometamos a nós próprios que vamos rodar devagar. Porque mesmo quando rodamos devagar, se por algum motivo temos que travar de forma repentina e temos, muito provavelmente, montados uns pneus mistos, multiplicam-se as probabilidades de apanharmos um enorme susto e aumentam as probabilidades de bloquear a roda dianteira.

Por isso o melhor a fazer é ter bem claro quais são as pressões ideais para a nossa moto em off-road, indicadas pela marca, que serão sempre mais baixas face às pressões indicadas para o asfalto e aplicá-las antes de sair da estrada. Tem presente que os maiores riscos estão sempre presentes na roda dianteira e não te esqueças de voltar a repor os valores iniciais, quando regresses ao asfalto. Por tudo isto, os sensores de pressão dos pneus são uma ajuda preciosa e são cada vez mais os modelos trail que trazem esta opção de série, evitando assim alterar os valores “às cegas”. Se as vossas motos têm válvulas de saída lateral, então são uns autênticos sortudos, é o sistema mais prático e cómodo, sem dúvida.
MODOS DE CONDUÇÃO
Nas motos modernas, o trabalho do ABS e do controlo de tração normalmente dependem do modo de condução selecionado, embora a eletrónica não tenha conquistado de igual forma o coração dos engenheiros que se dedicam ao desenvolvimento das motos trail. A popularíssima Yamaha Ténéré 700 era, surpreendentemente até à chegada da versão de 2025, uma das poucas motos de “modo único”. A possibilidade de uma moto se poder comportar de formas distintas e ver alterado em grande medida o seu carácter pelo simples facto de podermos selecionar um modo ou outro, reforça a verdadeira essência trail, onde é suposto ter nas nossas mãos autênticas motos de uso duplo.

A quantidade de parâmetros que podemos alterar quando mudamos o modo de potência vão desde a potência, travão motor, suspensões, ABS, controlo de tração, controlo anti-cavalinho, entre outros. Podemos sentir-nos agradecidos porque os avanços tecnológicos no domínio da eletrónica nos permitem, sem termos que trocar de moto, desfrutar em pleno de um comportamento idóneo no campo, estrada, cidade, quando queremos ir tranquilos, ou quando queremos uma condução mais desportiva, nos dias de chuva intensa… ou até no final do mês quando nos nossos bolsos começam a escassear os euros para meter gasolina.
Para resolver o problema, temos à nossa disposição os modos, normalmente denominados off-road, road, urban, sport, rain… e eco (além de muitos outros que podem ter diferentes denominações mas que no final fazem o mesmo). O ideal é podermos contar com a opção de modos configuráveis, que nos permitam definir os parâmetros ao nosso gosto e, acima de tudo, quando desligamos a moto que mantenham as alterações que fizemos.
SUSPENSÕES
As suspensões das motos trai costumam vir de série com opções de ajustes de suspensões, que são mais adequados para a utilização em estrada do que em terra, por forma que, se pretendemos dar prioridade ao off-road, podemos fazer simples ajustes ajustes, que normalmente se focam em baixar os valores da compressão e aumentar a resposta da extensão. Vamos notar de imediato que a moto se torna menos instável, mais controlável e fácil de conduzir.

No caso da vossa moto estar equipada com suspensão eletrónica, ela mesma se encarregará de fazer os ajustes necessários, bastando para isso selecionar o modo de condução mais adequado para, de forma imediata, adaptar-se automaticamente ao meio que pisamos. De qualquer forma, temos sempre a opção de sermos nós próprios a ajustar a resposta da suspensão de forma manual.
AQUECIMENTO
Já mencionámos a fadiga e esta não é uma questão trivial quando falamos de off-road, porque, a diferença do que acontece quando viajamos apenas por asfalto e acusamos um cansaço meramente postural, o campo gera um enorme desgaste físico, proporcional ao nosso ritmo e que se materializa antes de mais na sobrecarga dos ante-braços, os quais sofrem de uma rápida rigidez, ao ponto de não conseguirmos segurar bem o guiador, com todos os perigos que isso representa. Um breve passeio por um estradão em bom estado não nos causará qualquer incómodo, ao contrário do que acontece numa viagem mais longa, com secções técnicas, buracos, pedras, lama… isto pode retirar por completo o nosso prazer de condução se não nos precavermos

Fazer um pequeno treino, quando temos o objectivo do fora de estrada no horizonte, ajuda-nos a ganhar força física e mental e, tal como em qualquer outra atividade física, fazer um aquecimento prévio que nos prepare para o esforço, é meio caminho andado para reduzir a fadiga física. Mas a forma como a prática do off-road castiga o nosso corpo, é tão particular, que podemos também beneficiar de outras ajudas específicas como as que atuam diretamente sobre os nossos castigados ante-braços. Uma delas, a mais clássica, o aquecimento muscular através das chamadas bolas giroscópicas – gyro balls – , bolas magnéticas, que em poucos minutos são capazes de deixar-nos os ante-braços completamente “fritos”. Outra, é o alongamento da zona, através do “X Arm Strong”, um objecto muito fácil de usar e de efeitos milagrosos – e falamos por experiência própria – idealizado por Aldon Baker, um dos preparadores de pilotos de motocross mais prestigiados do mundo.
CONTROLO DE TRAÇÃO
Neste caso é muito semelhante ao do ABS. No início os controlos de tração eram demasiado bruscos, com tremenda falta de suavidade. Se a moto começava a derrapar com a roda traseira numa curva e já contávamos com isso para a fazer virar melhor, chegava o controlo de tração e cortava de forma abrupta a transmissão da entrega de potência à roda, que nos destabilizava por completo, provocando uma inesperada reação de sobreviragem. Por sorte, com a passagem do tempo, os sistemas evoluíram em diversas direções e nos dias de hoje seguem um padrão de intervenção muito mais gradual, e para além de tudo, nas motos com maior nível de sofisticação eletrónica, adicionam uma versatilidade antes impensável, uma vez que podem ser configurados pelo utilizador em função das suas necessidades pontuais: se nos deparamos com uma passagem de lama, ou um troço com areia branda, algo que com uma trail deveríamos evitar na medida do possível, optaremos pela opção de resposta mais intrusiva.

Se, pelo contrário, desfrutamos de boa tração que nos brinda com confiança suficiente para brincar um pouco com a moto, então o melhor é prescindir do controlo de tração, ou se optarmos pelo nível de intervenção mais comedido, não será demais, uma vez que se trata de modelos com muita potência.




