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História MV Agusta 80 anos – 2ª parte, O renascer da lenda

Fernando Neto Por Fernando Neto
18 Março, 2026
em Artigos, Motomais
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Após o colapso na segunda metade da década de 1970, foi preciso chegarmos quase ao limiar do séc. XXI para a glória da MV Agusta ser restaurada, com a espetacular F4 a marcar o início de uma segunda vida para a marca que agora cumpre o seu 80º aniversário.

POR Luís Carlos Sousa  •  Fotos MV Agusta

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A produção da MV Agusta na fábrica de Cascina Costa terminou em 1977 e, com ela, acabava também uma era que, principalmente nas pistas, elevou a MV a um estatuto quase lendário no palco mais reputado do desporto em duas rodas, o Mundial de Velocidade. Com 38 títulos mundiais de Pilotos e 37 de Construtores conquistados em quatro categorias diferentes entre 1952 e 1974 (entre os quais 17 títulos de 500 cc consecutivos), a MV Agusta continua hoje, 50 anos depois, a ser a marca europeia mais vitoriosa de sempre nos Grandes Prémios.

Foi esse estatuto de lenda que manteve o nome MV Agusta bem vivo no coração dos adeptos do motociclismo, principalmente naqueles que tinham crescido sob o domínio avassalador das motos pilotadas por Agostini, Hailwood, Surtees ou Read na classe rainha do Mundial. Entre eles estava um empreendedor apaixonado por motos, que tinha já erguido, a partir das cinzas da AMF Aermacchi, um império industrial no sector: Claudio Castiglioni, ele que, com o seu irmão, Gianfranco, liderava o Grupo Cagiva – de CAstiglioni GIovanni (pai de ambos e fundador da empresa) VArese.

No início dos anos noventa, para além da marca que criou em 1978 (após a compra da Aermacchi) e lhe dava o nome, o Grupo Cagiva detinha também a Ducati, Morini e Husqvarna. Em 1992, a Cagiva anuncia que tinha adquirido os direitos sobre a marca MV Agusta, uma notícia bem recebida pelos fãs do motociclismo, que viam aqui, finalmente, um caminho para o renascimento das lendárias ‘balas vermelhas’ de Varese.

Mas, nos primeiros anos, o relançar da MV foi ficando em suspenso, numa altura em que o Grupo Cagiva, envolvido em várias frentes comerciais e desportivas com as suas marcas, passava por dificuldades financeiras.

Em 1996, os irmãos Castiglioni vendem a Ducati e a Moto Morini ao fundo de investimento norte-americano Texas Pacific Group, mas, nesta altura, já estava em fase de gestação a moto que iria marcar o renascimento da MV Agusta, a fabulosa F4 750.

Uma nova pérola de Massimo Tamburini

A elevada responsabilidade de criar a moto à altura da missão que era iniciar, com sucesso, uma segunda vida para uma marca com os pergaminhos da MV Agusta, foi entregue ao reputado CRC – Cagiva Research Centre -, o centro de design, pesquisa e desenvolvimento liderado pelo guru Massimo Tamburini, de onde tinham saído obras de arte em duas rodas como a Ducati 916 e por onde passavam então alguns daqueles que viriam a ser dos maiores nome do design de motos, como Miguel Angel Galuzzi, Pierre Terblanche ou Adrian Morton.

Quando a TPG comprou a Ducati, foi sugerido a Tamburini fazer ‘parte do pacote’ da aquisição, mas ele preferiu continuar no CRC, onde os Castiglioni sempre lhe tinham dado toda a liberdade criativa.

A missão entregue a Tamburini era a de criar uma desportiva icónica, uma três ou quatro cilindros que fosse diferente das japonesas, mas que também não fosse uma cópia da Ducati 916, que tinha sido aclamada mundialmente e conquistado o Mundial de SBK logo no seu primeiro ano. Entre equipar a moto com um motor ‘Made in Japan’ ou começar do zero, Claudio Castiglioni preferiu a segunda hipótese, desenvolvendo um novo motor de quatro cilindros em colaboração com a Ferrari.

Nascia assim a MV Agusta F4 750, que foi revelada ao público a 16 de setembro de 1997, no dia de imprensa do Salão de Milão – EICMA, perante o espanto e a admiração de todos. Tamburini tinha acertado de novo. A F4, adotando o esquema de cores vermelho e prata que tinha marcado os anos de glória da MV, com uma fabulosa estética de linhas afiladas e sensuais, pontuada pela icónica traseira com as quatro saídas de escape sob o assento, tornou-se um clássico do design de motos instantâneo, tal como tinha sido a 916. Uma verdadeira obra de arte intemporal, que permanece tão elegante e atual hoje como era no dia do seu lançamento há 28 anos!

Mais altos e baixos

Em 1999, a identidade do grupo passou a assumir o nome MV Agusta e, depois de ter sido anunciada uma primeira série limitada de 300 unidades da F4, a ‘Serie Oro’ (a um preço que equivalia a cerca de 35 mil euros), a moto pôde ser vista em ação pela primeira vez em abril desse ano, no traçado de Monza. No final de 1999 era apresentada a mais acessível F4 S, recorrendo ao alumínio onde a Serie Oro tinha magnésio e ao plástico ABS no lugar de carbono, por metade do preço. A F4 750 manter-se-ia em produção até 2004, altura em que foi apresentada a F4 1000, juntando-se a uma gama que já contava com a impactante naked Brutale.

Esta foi também uma nova época de dificuldades para o rebatizado Grupo MV Agusta, que vendeu nesse ano 65% do capital da empresa ao grupo malaio Proton – que, por sua vez, venderia essa participação a um grupo financeiro italiano um ano depois. Em 2007 o Grupo MV vende a Husqvarna à BMW Motorrad e, no ano seguinte, a própria MV era vendida à Harley-Davidson.

Mas a H-D também tinha os seus problemas e, aparentemente, ninguém segurava a MV por muito tempo. A marca americana decidiu vender a MV Agusta logo em 2009 e, no ano seguinte, a família Castiglioni reuniu os fundos que lhe permitiram recuperar finalmente a marca e arrancar com um fôlego renovado. Mas o coração do grupo que era Claudio Castiglioni faleceu em 2011, aos 64 anos de idade, com a liderança a passar para o seu filho Giovanni.

Os planos de evolução da marca continuaram com o lançamento do motor tricilíndrico que daria origem às F3, que Claudio Castiglioni havia considerado o futuro da MV Agusta, primeiro com a 675 e, mais tarde, com as 800, para além de uma nova geração ‘Corsa Corta’ do motor 1000.

O crescimento dos anos seguintes conduziu à cobiça de outros grupos que, por outro lado, viriam colmatar algumas dificuldades financeiras que recomeçavam a surgir. A AMG Mercedes comprou 25% da MV em 2014, mas os problemas persistiam e as trocas de mão continuaram ao longo dos anos. Em 2017, o fundo de investimento russo Black Ocean Group adquiriu 49% do capital da MV e, um ano mais tarde, reforçou esse investimento, com Timur Sardarov a ser nomeado CEO.

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As trocas de mãos não ficariam por aqui: em 2020 a Pierer Mobility Group, dona da KTM, comprou 25,1% da MV Agusta e, em 2024, passou a assumir uma posição maioritária com 50,1%. Uma vez mais, foi ‘sol de pouca dura’, com a recente crise da KTM a fazer com que, no início do presente ano, quando comemora os 80 anos da sua primeira moto, a MV Agusta tenha regressado ao controlo total do Black Ocean Group e da família Sardarov.

No meio de todas estas convulsões, o charme e o prestígio da MV Agusta tem saído, senão intocado, pelo menos mantendo-se como o paradigma de moto de sonho, com as prestações e um design fabuloso a manterem as MV como das motos mais desejadas desta indústria. Quando o sucesso comercial arrancar, estará aberto o caminho para o regresso à glória de uma das marcas mais icónicas do mercado? Façamos votos que sim.

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Tags: históriaItáliaLendamotosMV AgustaRevista Motos

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