A família V7 é uma das mais reputadas da Moto Guzzi e uma das mais respeitadas no mercado global. Se a marca italiana já virou o centenário em 2021, a família V7 está prestes a comemorar a bonita idade de 70 anos. Neste caso, o ditado que diz que “é como o vinho do Porto, quanto mais velho, melhor” assenta-lhe que nem uma luva e esta nova V7 Sport é considerada como uma das melhores V7 de sempre.
POR Domingos Janeiro • Fotos Paulo Calisto

Pelo menos para nós, apresentou-se como uma bela e distinta companheira durante a semana que durou o nosso teste. Daquelas que ficamos, genuinamente com pena de a ter que devolver ao importador. E os motivos foram diversos, desde o estilo que em conjunto com o carismático bloco V2 continua a marcar-nos, até às novas atualizações estéticas e ciclística, sem nunca esquecer o desempenho. Tudo o que valorizamos numa moto, complementado por um notável equilíbrio entre história e modernidade.
Mas a história da V7 nem sempre foi marcada pelo sucesso, com o modelo a ver interrompida a sua produção nos anos ‘70, para regressar em grande forma ao mercado em 2008. E regressou com praticamente os mesmos argumentos com que havia saído de produção, mas, naturalmente, ajustada à nova realidade, incluíndo o seu clássico motor de dois cilindros em V a 90º, também ele, embora mantendo a sua arquitetura clássica, foi revisto. Atualizada foi sendo também a cilindrada e prestações do bloco V2 ao longo dos tempos, que passou dos 744 cc para os atuais 853 cc, este último bloco que foi estreado na Trail V85 TT apresentada em 2021. Além da estreia do motor, os engenheiros da Moto Guzzi têm sabido trabalhar na evolução, sem ter que abdicar de pilares base na V7 como os já falados design e motor, mas também ao nível da transmissão, onde o veio de transmissão continua a ser opção. E como sabemos que esta nova estratégia da marca italiana funciona? Através dos números de vendas, não só em Portugal onde estão estabilizados, mas através dos dados globais do mercado europeu.

Tradição vs modernidade
É difícil para uma marca histórica manter a confiança nas vendas de um modelo com quase sete décadas, mas para a Guzzi tem sido possível. Dirão que é um segmento de nicho, claro que sim, mas um nicho que tem vindo a crescer e a ganhar adeptos, permitindo assim dar mais valor à família V7. Dentro da própria gama italiana, a Guzzi sempre disponibilizou diversas opções e versões, sendo esta Sport o pináculo da tecnologia e desempenho. Na verdade, esta Sport representa a V7 mais tecnológica de sempre. Cumpridora da Norma Euro5+, que não penaliza as prestações, como veremos mais adiante, passou a ter acelerador eletrónico “ride-by-wire”, novo sistema de escape, novo filtro de ar, novas suspensões e um novo modo Sport, exclusivo desta versão, que se junta aos já existentes Road e Rain que as versões Stone e Special já incluíam. A V7 Sport passa a utilizar uma IMU de seis eixos que permite gerir o ABS e controlo de tração em curva e para as viagens mais longas, temos sempre à nossa disposição o “cruise control”. Surpreendente é também o preço a pagar por esta que é a V7 mais tecnológica de sempre, uma vez que se mantém dentro dos valores das restantes opções, com uma diferença de cerca de 1000€ face à Stone, mas cujos argumentos valem cada cêntimo a mais.

Ciclística
Ao contrário das suas irmãs que optam por manter uma forquilha convencional de 40 mm, a Sport recorre a uma forquilha invertida de 41 mm ajustável na pré-carga, enquanto que na traseira encontramos os mesmos amortecedores utilizados pelas restantes versões. Também no capítulo da travagem temos um avanço importante na qualidade e eficácia pois passámos a ter dois discos de 320 mm instalados na roda dianteira, com pinças radiais Brembo de quatro pistões. Atrás, mantém o mesmo disco de 260 mm com pinça de dois pistões. Estreia ainda novas jantes de liga leve, que permitem uma redução de peso de 1,8 kg quando comparadas com as usadas pela versão Stone. Outros detalhes que fazem a diferença face às restantes opções são a colocação dos retrovisores nas extremidades do guiador, apoio do farol de LED dianteiro em alumínio, novas mesas de direção e novo estofo do assento.

Vibrações?
Sim, e muito boas!
É verdade que no conjunto se sentem algumas (parcas) vibrações, que até dão carácter à Sport, mas as vibrações que aqui falamos, são as “boas vibrações” que a nova V7 Stone tem para dar e vender. Continua a ser um daqueles modelos que sentimos compactos e maciços com algum peso associado, mas o facto de termos o assento colocado a apenas 780 mm do solo, permite-nos apoiar ambos os pés no chão, transmitindo imediatamente confiança e segurança, até mesmo aos utilizadores menos experientes. A postura de condução, embora mais empurrados para a frente, é a clássica, confortável, com guiador largo que nos dá maior envolvência com a moto. A colocação das pernas é natural e confortável e até mesmo o facto de não ser um exemplo de aerodinâmica é totalmente perdoado neste modelo. Quando colocamos a V7 Sport em funcionamento somos invadidos por aquela sonoridade inconfundível que nos deixa de sorriso no rosto e aos tradicionais “clanks” da caixa de seis velocidades, que continua a mostrar-se um pouco rija e com funcionamento muito mecânico, mas bem escalonada.

Uma vez em andamento notamos que este bloco de dois cilindros em V a 90º com 853 cc, refrigerado por ar, com sistema ride-by-wire assenta muito bem nos princípios que a Sport quer transmitir, uma vez que as prestações também foram revistas e ajustadas ao modelo, com os 67,3 cv às 6900 rpm e os 79 Nm de binário às 4400 rpm a contribuirem para uma energia contagiante, seja em que regime de rotação for. A marca assegura que logo às 3500 rpm temos cerca de 95% do binário disponível e a verdade é que na prática sentimos um regime baixo de rotação muito forte, uma autêntica delícia em ambiente urbano. Já nas estradas de montanha brinda-nos com um aprumo equilibrado, com os avisadores dos pousa-pés a fazerem o seu trabalho, mas onde notamos que os pneus, mesmo depois de quentes, podem reclamar do estado do asfalto que pisamos. Nada que comprometa a segurança. Também notámos que é mais ágil nas mudanças de direção do que aparenta à primeira vista e é aqui que faz valer as novas atualizações da suspensão e travagem. Sente-se muito confiante a curvar e para de forma imediata, equilibrada e com um tacto muito bom.

CONCLUSÃO
A marca de Mandello del Lario conseguiu, uma vez mais, aperfeiçoar o conceito V7 sem chocar os mais puristas e por outro lado, captar a atenção dos mais novos ou daqueles mais experientes que nunca tinha olhado para a Moto Guzzi como opção… até agora! É um modelo com uma filosofia mais desportiva face às demais versões, colocando-a também num patamar mais premium. Os 10 199€ (mais despesas de documentação) não ficam desfasados dos restantes membros da família V7, muito pelo contrário, consideramos que é uma relação de qualidade/preço muito adequada.
Uma evolução muito bem conseguida, de forma muito ajustada e equilibrada, que deixa a marca italiana numa posição confortável quando a vendas e a futuro!


