Projeto Ser Solidário envolveu Agrupamento de Escolas Fragada do Tejo. A iniciativa partiu de Tiago Machete, professor no Agrupamento de Escolas Fragata do Tejo, na Moita, e envolveu alunos do 6ª ano e toda a comunidade escolar. O objetivo; levar até Marrocos roupa, calçado, equipamentos informáticos e materiais escolar, para entrega num orfanato, de moto!
Entrevista realizada por Pedro Vitorino

No dia 13 de fevereiro a Escola Básica do 2º e 3º Ciclos Fragata do Tejo, na Moita – margem sul do Tejo – teve um dia diferente. Coube aos alunos das turmas 6º D, 6º E e alunos falantes de Português como Língua Não Materna, tomar conta das “operações” do Projeto Ser Solidário.
Sete motociclistas – entre eles o professor Tiago Machete – tiveram a Escola Fragata do Tejo como local de partida e, mesmo com um dia a prometer um dilúvio, partiram com as suas motos bem carregadas em direção a Marrocos, para tornar mais felizes as vidas de algumas crianças deste país.
Falámos com Tiago Machete, que nos dá conta, em detalhe, do Projeto Ser Solidário.

– Como surgiu a ideia para este projeto?
O projeto nasceu na aula de Português, no ano letivo 2024-2025. No início do ano letivo, após o terramoto sentido em Portugal, surgiu o exemplo de Marrocos e do grande terramoto de 2023. Os alunos aprenderam como agir em situações de catástrofe, mas ficaram muito sensibilizados com a devastação em Marrocos. Foi nesse momento que surgiu a ideia de angariar doações e eu prometi que se os alunos angariassem muitas coisas boas as levaria, pessoalmente, à zona do sismo. O resultado foi a angariação de mais de 1000 peças de roupa!
– Como participaram os alunos da Escola neste Projeto?
No presente ano letivo, nesta segunda edição do projeto, para além da recolha de doações, o projeto visou um trabalho multidisciplinar. Nas aulas de Português, os alunos escreveram cartas formais solicitando apoio a diversas entidades, escreveram convites formais para o evento de partida, que foram enviados por email, e construíram um roteiro da viagem, com informações sobre os locais de passagem e a cultura marroquina. Na disciplina de Educação Musical, prepararam uma música, com uma letra original, que cantaram e tocaram no dia do evento de partida. Também na disciplina de Educação Visual, decoraram o logótipo do projeto, um capacete de moto “Adventure” e, com a ajuda dos alunos do 9.º A, decoraram um mural com os capacetes, mural esse que viria a servir para os convidados tirarem fotografias no dia do evento.
– Vimos que as motos saíram bem carregadas… Houve alguns percalços na viagem devido à carga “extra”?
Apesar da carga ser significativa, as motas aguentaram sem problemas. Para o efeito contribuiu a boa manutenção feita, pneus novos, bagagem de qualidade e muita vontade dos motociclistas. O único problema aconteceu na travessia para Marrocos, pois as motas ficaram mal presas no barco e quatro delas tombaram, tendo duas ficado com alguns danos ligeiros, nada que comprometesse a segurança dos motociclistas.

– Como foram recebidos em Marrocos pela instituição a que entregaram os donativos?
O orfanato é gerido pela associação Al-Riadah, na cidade de Er-Rich, no Atlas. Esta é uma associação que apoia cerca de 700 pessoas, todas diabéticas, grupo onde se incluem as crianças órfãs. A receção foi excecional e, mesmo tendo dificuldades financeiras, os responsáveis da instituição fizeram questão de nos oferecer o almoço. Também nos presentearam com um agradecimento escrito, emoldurado, dirigido ao Agrupamento de Escolas Fragata do Tejo. Não há palavras para descrever a humildade destas pessoas.
– Depois da viagem ainda haverá iniciativas que envolvam os alunos?
Sim, depois da viagem haverá duas iniciativas que envolvem os alunos. A primeira é a construção de um mural com fotografias da viagem, na sala de convívio da escola. A segunda iniciativa será realizada em articulação com a biblioteca escolar e consiste na transformação de um espaço da biblioteca em sala de cinema. Os motociclistas viajaram munidos de várias câmaras de filmar e será montado um filme sobre a viagem, que será visualizado por todos os alunos da escola.
O roteiro da viagem
1.º dia – 13 de fevereiro de 2026
Moita – Algeciras (640 km)
2.º dia – 14 de fevereiro de 2026
Algeciras – Meknès (350 km)
3.º dia – 15 de fevereiro de 2026
Meknès – Amellagou (350 km)
4.º dia – 16 de fevereiro de 2026
Amellagou – Merzouga (350 km)
5.º dia – 17 de fevereiro de 2026
Merzouga (150 km)
6.º dia – 18 de fevereiro de 2026
Merzouga (50 km)
7.º dia – 19 de fevereiro de 2026
Merzouga – Gargantas do Dadès (350 km)
8.º dia – 20 de fevereiro de 2026
Gargantas do Dadès/ Beni Mellal (330 km)
9.º dia – 21 de fevereiro de 2026
Beni Mellal/ Tarifa (600 km)
10.º dia – 22 de fevereiro de 2026
Tarifa/ Palmela (630 km)
Total de km = 3.800 km
*Nota: alguns dos percursos não foram diretos, houve desvios para visitar locais e usufruir de estradas específicas.

Peripécias
Para além das dunas, que é sempre um local mágico, nesta viagem tivemos a oportunidade de fazer duas estradas absolutamente magníficas. Uma delas é a estrada do Túnel de Tagountsa. Como não há vivalma e nós já sabíamos ao que íamos, levámos chouriços, pão e vinho tinto para comer uma “bucha” a mais de 2.000 metros de altitude.
Apanhámos muita neve, em alguns locais com bem mais de 2 metros de altura. A estrada que liga as Gargantas do Dadès a Agoudal estava fechada por causa da neve, então tivemos de voltar para trás e apanhar a estrada das Gargantas do Todra para o mesmo local, Agoudal.

A estrada R306 foi talvez a mais impactante, com paisagens que só um génio literário conseguiria descrever por palavras. Absolutamente fascinante!
Tivemos alguns problemas com gelo na estrada, muito perigoso, e, por milagre, não houve quedas.
Toda a comida marroquina que comemos foi espetacular, porém, numa tentativa de desenjoar das tagines, tivemos o azar de pedir o pior esparguete à bolonhesa que alguma vez comi na minha vida.
Foi a viagem perfeita!

A foto de abertura desta reportagem
Na foto podem ver o grupo no dia de partida na Escola Fragata do Tejo, na Moita, com o grupo de motociclistas junto dos alunos que fizeram parte do Projeto Ser Solidário. José Vicente (Honda Transalp 700) / César Pereira (Yamaha Ténéré) / Rogério Barrancos (KTM Adventure 1090) / Nuno Cristóvão (BMW R 1250 GS) / José Palmeiro (KTM Adventure 1290) / Jorge Fernandes ( Honda Africa Twin 1100) / Tiago Machete ( Honda Africa Twin 1000).





