Aldeias históricas, curvas e um furo para recordar
Há viagens que se fazem pelo destino, outras pelo caminho. Esta foi um bocado dos dois. A ideia era simples: sair de Lisboa, aproveitar uns dias de folga e redescobrir a zona da Beira Baixa em duas rodas. A minha fiel Triumph Tiger 800 XCA estava pronta, cheia de vontade como eu. Com o depósito cheio e o GPS mais ou menos desligado (porque o melhor da viagem são os imprevistos), arranquei. Dois dias, muitos quilómetros, boas curvas e um final… bem, mais inesperado.
POR Rui Domingues Fotos: Rui Domingues
Dia 1
Lisboa, Sortelha, Penamacor, Idanha-a-Velha, Idanha-a-Nova
A saída de Lisboa não tem grande história: autoestrada, trânsito e aquele tipo de estrada que só serve para cortar quilómetros. Mas à medida que fui avançando para o interior, o ambiente mudou. O destino da manhã era Sortelha, uma das aldeias históricas mais bonitas do país. Assim que se entra, o tempo abranda. Casas de pedra, ruas apertadas e um silêncio que já não se encontra em muitos sítios. Dei uma volta com calma, estiquei as pernas e aproveitei para tirar umas fotos.
A fome começou a apertar e o destino seguinte foi o restaurante O Celta, ali mesmo perto. A escolha não podia ter sido melhor. Pratos regionais bem servidos, comida com sabor e um atendimento sem pressas. Tudo o que se quer depois de algumas horas de estrada.
Com o estômago tratado, segui para Penamacor. Subi ao castelo, claro, com a torre de vigia a oferecer vistas largas sobre a paisagem beirã. Ainda pensei em ficar ali um bocado, mas havia mais para ver. Por isso, montei-me novamente na Tiger e segui caminho até Idanha-a-Velha. Se Sortelha parece saída de um filme medieval, Idanha-a-Velha parece um museu ao ar livre. Tem muralhas romanas, uma antiga catedral, ruínas espalhadas e um ambiente tranquilo que convida à contemplação.
O dia terminou em Idanha-a-Nova, onde pernoitei no Hotel Estrela da Idanha. Um hotel simples, mas honesto. Tem piscina, mini-golfe (para quem ainda tiver paciência depois de um dia de estrada) e, acima de tudo, gente simpática. Dormi bem, que é o que se pede num dia como este.
Dia 2
Idanha-a-Nova, Monsanto, Rosmaninhal, Castelo Branco, Lisboa
O segundo dia começou com uma visita à famosa aldeia de Monsanto. Já a conhecia, mas há sítios onde vale sempre a pena voltar. A subida ao castelo é puxada, muita pedra, escadas irregulares e um calor que não perdoa, mas a vista lá de cima compensa o esforço. Demorei cerca de duas horas a explorar com calma, entre fotos e pequenos desvios para cantos escondidos.
Depois de Monsanto, decidi fugir às estradas principais. Segui pela N332, passei pela Zebreira e fui em direção a Rosmaninhal, sempre a evitar a N240 que vai dar a Monfortinho. A ideia era mesmo essa: andar devagar, sem pressa, por estradas secundárias com paisagens que merecem ser vistas. Entre Rosmaninhal e Castelo Branco encontrei uma das estradas mais bonitas do percurso, com vistas desafogadas para o Parque Natural do Tejo Internacional. Pouco trânsito, curvas apertadas, algumas com pouca visibilidade e um tapete de alcatrão aceitável. Para mim, é tudo o que se pode pedir para uma boa viagem de moto.
Em Castelo Branco, parei para almoçar no restaurante O Telheiro do Abílio. Já lá tinha comido e continua a valer a paragem. Comida regional bem feita, doses bem servidas e um ambiente acolhedor. No final da refeição, fiquei à conversa com o dono que, num tom descontraído, me falou das casas rurais que tem para alugar na zona de Oleiros. Curiosamente, já tinha ficado hospedado numa delas num dos Adventure Days organizados pela Balgarpir, um evento para malta do todo-o-terreno onde se junta o útil ao agradável: natureza, máquinas e convívio.
Satisfeito, montei-me na Tiger e preparei-me para o regresso a casa, pela A23. A ideia inicial era seguir depois pela N118 até Lisboa, mas o destino tinha outros planos. Mal entrei na A23, ainda perto de Castelo Branco, senti a moto a comportar-se de forma estranha. Furo na roda traseira. Domingo à tarde, calor, e claro, nada por perto. Não é fácil trocar uma câmara de ar assim, no improviso, por isso fui avançando devagar. Sei que não é o ideal (nem o mais seguro), mas decidi seguir até casa com o pneu vazio, sempre com muito cuidado. A Tiger aguentou estoicamente. Eu também. Já o pneu, esse ficou para contar a história.
Resumo Final
Foram dois dias de viagem, mais de 600 km e um belo lembrete de que Portugal tem muito para oferecer, mesmo ali ao virar da esquina. Aldeias com séculos de história, estradas perfeitas para duas rodas e comida que faz esquecer qualquer dieta. Viajar de moto por estas zonas é mais do que passeio, é terapia. E quando algo corre mal, como um furo no regresso, isso só dá mais sabor à história. Afinal, o que seria de uma boa viagem sem um pequeno imprevisto?
A Companheira de Sempre: Triumph Tiger 800 XCA
Durante toda a viagem, a moto esteve impecável, como habitual. A Triumph Tiger 800 XCA é daquelas máquinas que dão confiança. Estável, com bom torque, confortável mesmo ao fim de várias horas e preparada para quase tudo. Não é uma pena em termos de peso, mas compensa com tudo o resto. A proteção aerodinâmica ajuda bastante nas estradas mais abertas, e o motor tricilíndrico é um prazer de conduzir, tanto nas subidas como nas retas. É uma moto que não se queixa, nem quando o alcatrão desaparece ou quando há que improvisar, como aconteceu no regresso.


