Antes de mais devo dizer-vos que tento viver o MotoGP sem clubismos nem bandeiras, sem amores e ódios exacerbados por sentimentos de grupo. Esta estirpe de heróis (aos quais o Miguel pertence) merece o meu maior respeito, e a maneira como arriscam a sua vida para nos proporcionarem o melhor espectáculo do mundo, só nos pode tornar nuns privilegiados.
E como pobres humanos que somos, devemos tornar-nos gratos.
Mas tendo em conta este silogismo, não significa que seja imune ao facto de sentir um orgulho enorme ao ver um português na grelha de partida do melhor desporto motorizado do mundo. Como nesta casa raramente se vê futebol, das primeiras vezes que o meu filho mais velho cantou o hino, foi com a imagem do Miguel no lugar mais alto do podium (e assim começou a explosão de autocolantes com o número 88 em todos os seus objetos favoritos, da bicicleta ao computador…).
Este sentimento de pertença, esta ligação emocional à terra, à nossa língua e identidade, tem um efeito emocional tendencioso, com o qual luto para não me entregar. Um piloto vale pelas suas conquistas, pela sua coragem e dedicação. Mas se no meio daquele circo de feras encontramos um pouco de nós, é impossível ficarmos indiferentes. A inteligência, a argúcia, a capacidade de esforço, são ferramentas que nós portugueses utilizamos para nos destacarmos dos demais. Somos do tamanho dos nossos horizontes e não temos medo de dar o passo em frente.
Quando o Miguel seguia atrás do Jack Miller e do Pol Espargaró naquela última volta do Grande prémio da Áustria, as suas certezas eram um mundo de dúvidas em todos os que observavam o desenrolar dos acontecimentos. O ataque cirúrgico na última curva ultrapassando os dois loucos que pecaram por excesso, foi dos melhores momentos desportivos que assisti na minha vida. Um luxo, uma ode ao motociclismo, a mais pura definição de classe. A sua mestria na dança da chuva na Tailândia e na Indonésia e a maneira como mostrou o seu domínio no carrossel Algarvio fizeram-nos acreditar que tudo era possível, bastavam as peças do puzzle encaixarem no sítio certo. E mais sorte, muito mais sorte.
Tudo indica que esta será a última época do Miguel no MotoGP. E se ao escrever estas linhas não existem garantias quanto ao seu futuro, ainda persiste a esperança de que a sua história não tenha acabado de ser escrita. Se me for permitido uma retrospectiva de tudo o que nos entregou, só lhe posso agradecer o facto de poder ter assistido a momentos absolutamente brilhantes. O nosso campeão. E num país que obriga os pilotos a atravessarem a fronteira para poderem ganhar notoriedade, não sabemos quando surgirá outro…
P.S. Crónica de Pedro Alpiarça publicada na Revista Motos de outubro, muito antes do início da temporada 2026 do Mundial de Superbike



