Uma das perguntas mais comuns que faço àqueles que me pedem conselhos sobre a compra da sua moto nova, recai sobre o tipo de utilização. Se existir pragmatismo na resposta (o que é raro visto o efeito pouco racional que estas máquinas nos provocam), o processo simplifica. Mas se forem como eu, que imagina poder andar de moto em todos os cenários, a coisa fica mais difícil. A minha garagem de sonho seria qualquer coisa deste género…
Por Pedro Alpiarça
Reparem que este exercício reveste-se de uma camada de utopia recheada com uma dose generosa de ilusão. Ou então muita fé foi colocada no último boletim do Euromilhões que entreguei, porque seriam no mínimo 5 as motos que compunham a minha fantasia motorizada. Com o delírio maníaco a rolar de acelerador totalmente aberto, quero imaginar que estas escolhas seriam feitas sem cair em dramas monetários.

Em primeiro lugar, teria a ferramenta certa para vencer o trânsito citadino, e não existe nada mais prático do que uma scooter. Espaço extra sem necessitar de apetrechos de bagagem, leveza e agilidade ímpares com o devido conforto aerodinâmico, estas motos rimam com qualidade de vida. O segmento das 300/400 cc é aquele que oferece prestações convincentes para fugir às situações mais complicadas sem perder a capacidade de trazer as compras semanais do supermercado debaixo do assento. Irritar os amigos “machos-dos-motões” com bastante frequência seria mandatório.
No número dois deste sonho infantil com visão adulta, seria a presença de uma moto para fora de estrada. A especificidade do modelo teria que casar com o tipo de utilização mais comum, nunca uma 250 cc de motocross (não matriculada) ou uma maxitrail acima dos 200 e tal kg. A resposta a esta questão estaria sempre no mínimo múltiplo comum utilizado pelo grupo de amigos, visto que o todo o terreno é bastante mais seguro (e divertido) quando estamos acompanhados. Algo entre uma 300 endurista ou uma 600 rally raid, soa-me bem.
E o circuito? A procura dos apex com joelho no chão e as velocidades vertiginosas com margem de segurança? Se começarem a reparar existe um padrão, e aqui será ainda mais gritante a sua definição. Iria sempre para uma desportiva que não ultrapassasse os 150/160 cv. A idade e os reflexos pedem facilidade ao invés do compromisso que os actuais monstros de 200 cv exigem. Felizmente, as marcas dão cada vez mais importância a este nicho…
Para aqueles que me conhecem, sabem que o bicho das viagens se encontra adormecido, e mesmo hoje em dia, quaisquer tiradas de sol-a-sol a virar quilómetros são muito bem vindas. Neste particular modelo, o bem estar da pendura seria absolutamente fundamental, porque (lamento, mas é verdade) a minha é a melhor de todas e merece essa deferência. Excluindo as Sport-Touring porque a velocidade só iria gerar discussão, a minha escolha iria para uma turística carregada de tecnologia de conforto e alavancada por um binário imperial.
E então o que é que falta? A intemporal naked desportiva. O purismo de um motor espigado assente numa ciclística apurada, sem floreados aerodinâmicos. O carácter inerente a uma forma de estar na estrada, o usufruir dos elementos, o ser uno com uma peça de engenharia criada para se fundir com a nossa alma. Mais uma vez, não precisa de ser muito potente, só precisa de esbanjar atitude…
Era isto. Talvez um dia, se tiver muita sorte, consiga cruzar-me com alguém que tenha uma garagem parecida. Seríamos bons amigos.



