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Crónica: ainda dá para opinar de forma coerente?

Fernando Neto Por Fernando Neto
24 Agosto, 2026
em Crónicas
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Cheguei de férias! Não que isso tenha algum interesse para vocês, mas apenas para contextualizar, não andei por qualquer destino paradisíaco do outro lado do mundo nem me quis ausentar totalmente da TV e das redes sociais. Se calhar devia fazê-lo mais vezes mas adiante… Sendo assim, fui reparando que, mesmo em pleno mês de agosto, as notícias que falam de graves acidentes de moto continuaram infelizmente a surgir. Foram na Ponte 25 de Abril, a caminho da Concentração de Góis, em aldeias no interior, em pleno centro de Braga, etc. Muitas fatalidades que aconteceram devido a fatores certamente diversos, mas o que é que nós lemos nos comentários das diversas notícias que falam dessas acidentes? Uma total divisão de opiniões…

Os comentários nas redes sociais valem o que valem, e se não fossem feitos aí seriam certamente à mesa do café, mas o que noto é que, tal como acontece com grande parte dos temas da sociedade atual (em que se geram discussões ridículas e extremas entre esquerda e a direita, como se não houvesse meio termo), em termos de sinistralidade acontece o mesmo. “Tinha que ser mais um maluco de mota”; Não me admira como não morrem mais, quando passam por mim o carro até abana“; “Da forma como andam na estrada andam mesmo a pedi-las” são alguns dos comentários que encontro, obviamente escritos por parte de pessoas que nem sabem como aconteceu o acidente e quais as razões do mesmo.

Por outro lado, também existem as opiniões contrárias, de que os automobilistas é que são sempre os culpados, muitas vezes até mesmo quando o despiste da moto aconteceu de forma isolada… Pois bem, em primeiro lugar os ataques mútuos nas redes sociais, mesmo sob a forma de palavras, só vêm causar ainda mais desconforto entre todos os que partilham a estrada, um pouco como tem acontecido nos últimos anos entre automobilistas e ciclistas.

Em segundo lugar, e mesmo não querendo de forma alguma normalizar a sinistralidade, após diversos anos de redução de acidentes, acaba por ser normal que os números voltem a subir, até porque o número de parque circulante não tem parado de subir nos últimos anos.

Em relação às culpas de toda esta sinistralidade… este é um assunto que dava pano para mangas, mas começo por falar de todos aqueles que vêm mal preparados das escolas de condução, pois afinal de contas, é na estrada que muitos aprendem realmente a andar, e alguns acabam por não ter tempo de o fazer em condições. Têm a culpa também muitos utilizadores de 125 cc, que vieram do mundo automóvel e agora pensam que é só andar a fundo pelo meio dos automóveis e que nada lhes acontece; assim como todos aqueles utilizam a moto nas entregas e tentam fazê-lo sempre o mais rápido possível.

A culpa está também na mentalidade de muitos portugueses, que consideram normal a ingestão de álcool quando se conduz, e na DISTRAÇÃO de grande parte das pessoas que circulam nas estradas. No passado houve campanhas sérias para não se falar ao telemóvel durante a condução: hoje em dia houve um retrocesso claro em relação a isso, e passou a ser normal mexer-se no tlm para tudo, seja por parte de quem anda de moto, mas em especial por parte dos automobilistas, estes que têm também dezenas de botões táteis à frente, confortáveis ao tato mas excelentes para todos tirarem os olhos de estrada. Estão a ver os carros de aluguer, conduzidos por parte de turistas que não conhecem as viaturas? Pior ainda, é guardar sempre uma distância de segurança para estes automóveis.

Tem a culpa também a velocidade excessiva praticada por muitos, velocidade que por si só não mata, mas que pode ser fatal quando se juntam as referidas distrações e os cruzamentos nas estradas. Já repararam quantos acidentes fatais acontecem em cruzamentos, por culpa de automobilistas que não pararam nos STOP, mas em que o motociclista vinha com velocidade excessiva? E quase sempre aos comandos de uma moto desportiva… Todas estas questões deviam ser analisadas, pois já se perderam demasiadas vidas assim.

Têm a culpa (não dos acidentes mas da difícil recuperação física), todos aquelas que circulam de moto sem o mínimo indispensável em termos de equipamento de proteção, e têm a culpa todos os “cromos” que têm a mania que são influencers e filmam-se a si próprios a fazer asneiras na estrada. A estes junto todos os idiotas que gostam de fazer barulho com as suas motos, especialmente em zonas residenciais, o que pode gerar depois situações de conflitos na estrada que eram perfeitamente dispensáveis.

Têm a culpa desta sinistralidade também todos os governantes que se estão a marimbar para o estado das nossas estradas, que são muitas vezes autênticas armadilhas, e têm a culpa todos aqueles que tornaram cada vez mais difícil a utilização de motos, de uma forma segura, nas pistas de Braga ou do Estoril.

É por tudo isto – e por mais algumas razões que me estou a esquecer neste momento – que os acidentes continuam a acontecer e de uma forma grave. Com algumas destas questões resolvidas, ou pelo menos minimizadas, e com mais cuidado por parte de automobilistas e motociclistas, o números de acidentes e de mortos iria certamente reduzir, mas uma coisa é certa: haverá sempre acidentes a lamentar, seja de moto, automóvel ou de trotinete (maldita a hora em que estas apareceram…); tal como haverá afogamentos numa praia, intoxicações alimentares, desastres naturais ou outras situações que não permitem a todos nós viver até aos 100 anos.

A todos umas boas curvas, em segurança!

Tags: AcidentesAndar de motoOpiniõessegurança

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