No passado mês de Setembro, o Autódromo do Estoril decidiu eliminar os track-days do seu calendário de eventos. Sob a pressão dos moradores circundantes e das constantes queixas de ruído (tendo inclusive criado uma associação dedicada à resolução de conflitos neste contexto), a direção decidiu ir mais além, permitindo apenas a realização de provas desportivas e respectivos treinos.
Esgotando em mim os meandros politicos (e sobretudo economicos) do alcance desta decisão, em vez de mergulhar em diatribes, prefiro transcrever o dialogo corrente daqueles que sofrem directamente com esta realidade. Segue o teatrinho…
“- Então Zé? Trocaste a naked por isto?
Epá sim! Precisava de mais, queria um bicho mais desportivo, sempre quis ter uma “R” e perdi a cabeça…
Mas isso é um canhão, vais sentado em cima de um míssil! E talento para essa ambição toda? Não me digas que a ideia é fazer auto estradas a 200 km/h ?
Olha, o desafio que esta moto me propõe é completamente diferente de tudo o que já experimentei. Não te consigo explicar, seja pela sensação de velocidade, seja pela agressividade da postura, adoro! Tenho a noção de que vou perder conforto de utilização, mas os níveis de performance dão-me uma exigência de pilotagem que me desafia. E é linda, não é?
De sonho. Parabéns! Sempre quis arriscar ter uma desportiva mas acho que ia dar mal resultado. Aquela coisa do kit de unhas, “tás” a ver?

Meu velho, está tudo na cabeça. Os limites são sempre nossos. Eu quando vejo o MotoGP fico doido com o que aqueles tipos conseguem fazer. E quando levei a naked para a pista e toquei pela primeira vez com o joelho no chão, fiquei viciado. Há qualquer coisa de mágico em tocarmos no apex completamente inclinados, de olhos postos na saída e com a alma entregue aos deuses da borracha. E repetir o processo uma e outra vez!
Deve ser “muita” bom, acredito. Até porque na estrada, esses malabarismos têm outros riscos, há tanta coisa que pode correr mal… Mas a ideia é fazeres pista? Onde?
Então, nos track-days. Não faço conta de ir fazer o nacional de velocidade…
Mas o Estoril já não permite. Houve lá uma chatice com os moradores… Ruído, acho eu…
Como assim? Isso é recente?
Sim sim. Só provas desportivas.
Então mas o que é que nasceu primeiro? E nos outros países, como é que eles fazem? Os ingleses pá, os espanhóis?
Pois, não sei… têm outra cultura e capacidade de reivindicação, não sei…
Olha que treta. Então agora temos apenas o AIA para curtir, é isso? Não posso crer que assim seja. É um circuito fabuloso, mas fica na ponta do país…
Os ingleses estão lá sempre, adoram aquilo.”
Por esta altura o silêncio tomou as rédeas da conversa. O olhar do feliz proprietário queda-se nostálgico, numa dicotomia entre a paixão pela sua nova máquina e a dificuldade de assumir a escolha feita. Apps de venda de usados foram abertas…
Pedro Alpiarça


