“Teremos Vale das Almas por mais alguns anos”
Afável, simpático e de trato fácil, Pedro Batista, o novo Presidente do Moto Clube de Faro, recebeu a equipa da Revista MOTOS na biblioteca da sede do clube. A entrevista foi esclarecedora e completa. Zé Amaro já não é presidente, mas fará sempre parte do presente e do futuro do maior Moto Clube do país.
POR Ricardo Carvalho • Fotos Cátia Mogo
Logo depois da primeira Concentração de Faro como Presidente oficial, e em jeito de balanço, a Revista MOTOS entrevistou Pedro Batista, o novo presidente do clube que substituiu no cargo o mítico e eterno Zé Amaro. Levamos connosco várias perguntas a que Pedro Batista não “fugiu”. Entramos na sede do Moto Clube com vontade de saber muita coisa e conseguimos. Pedro Batista conhece bem o “seu” clube e sabe o que quer para o presente e para o futuro. Aqui fica, em traços gerais, a nossa conversa com ele, apaixonado por motos, pela cidade de Faro e por organização…
Revista MOTOS (RM) – Como se sente ao assumir a presidência do Moto Clube de Faro?
Pedro Batista (PB) – Foi um desafio grande, é um clube que tem uma história de 42 anos e eu, como já estou na direção há 17 anos, tenho conhecimento do que aqui acontece, mas foi um enorme desafio. Cá estamos no caminho e agora é andar para a frente e fazer com que o clube dure muitos mais anos.
RM – Qual considera ser o papel do clube em relação à cidade e à região hoje em dia?
PB – Tem um papel bastante importante por vários fatores. Primeiro nós temos sempre um cariz social que não é muito divulgado. Costumamos ajudar as pessoas que precisam e, de alguma forma, tudo o que seja necessário em situações nas quais seja preciso o apoio do clube, estamos sempre disponíveis. Depois temos a parte económica, porque a Concentração acaba por criar e trazer economia para a cidade e ser boa para todos os restaurantes, para todo o comércio e para tudo o que faça parte da cidade, porque acabamos por trazer cá muita gente e essa gente consome, reforçando a parte económica de Faro. Também porque conseguimos colocar a “nossa” cidade no mapa. Na verdade, um pouco por todo o mundo quem estiver ligado ao mundo das motos já ouviu falar na Concentração de Faro. Colocamos Faro e Portugal no mapa, pelo menos no que diz respeito às motos.
Esta sede também foi feita a pensar nas pessoas que andam a viajar de moto. Temos zonas para estas pessoas pernoitarem e sem custos. Temos toda essa parte social que muita gente desconhece. Mas há muita gente que viaja de moto já sabe que se vier a Faro pode ficar aqui. Tudo isto é divulgado no passa a palavra, principalmente aqui por Espanha, que já tem um mundo motard muito próximo do nosso e são muitos os que sabem que podem ficar por cá. Ficam cá e nós mostramos-lhes a cidade e o clube, e ficamos orgulhosos pelo interesse deles.
RM – O que mudou no Moto Clube de Faro desde que foi eleito até agora?
PB – As coisas normalmente quando são bem feitas são para manter e aqui a ideia não é fazer uma mudança geral, mas sim criar alguns procedimentos que antigamente não existiam. Há algumas alterações em relação à Concentração, por exemplo, como o bilhete diário, a questão dos copos terem de ser reutilizáveis, não é uma obrigatoriedade, mas temos realmente de ver isso e manter, porque acabou por melhorar consideravelmente a higiene no recinto, e houve muita gente que nos deu os parabéns por isso.
RM – Quais são os principais objetivos para este mandato?
PB – Tentar criar mais união entre sócios e tentar fazer com que o nome do motoclube chegue mais além.
RM – Tem alguma mudança estruturante planeada para o clube?
PB – Para já não.
RM – Há planos para atrair novos membros, especialmente mais jovens?
PB – Sim, estamos a tentar… bem a questão principal não é atrair pessoas. Nós queremos ter pessoas no clube, que venham com o objetivo de trabalhar e fazer parte de uma organização de motos e não apenas para pagar quotas e fazer exigências. Quem vem com gosto e vontade de pertencer ao clube, é sempre bem-vindo. Nós não queremos ter, por exemplo, 2000 sócios. Nós queremos ter pessoas que gostem do MC Faro e queremos funcionar como uma família. Somos um clube em que a pessoa tem de mostrar que gosta, tem de o viver, para fazer número não faz sentido, porque depois os que estão cá e trabalham sentem-se prejudicados. Este é um modelo de clube difícil de encontrar, mas é importante mantê-lo porque foi isso que fez esta entidade chegar onde chegou. O meu trabalho estando na direção é como voluntário, não tenho remuneração, ninguém tem remuneração, e as pessoas que cá vêm também têm de lutar para conquistar o seu espaço. É um clube que não é para pagar para ter direito a um serviço. É importante termos mais sócios, mas é importante também que sejam sócios que gostem do clube e venham para cá com a ideia de colaborar.
RM – Quais são os desafios atuais na organização da Concentração de Faro?
PB – Toda a Concentração é um desafio grande e não é fácil de o medir, mas o objetivo principal é que todas as pessoas que vêm a Faro, regressem a casa sem acidentes e sem problemas. Isso acaba por ser o maior desafio. O outro desafio é a organização do evento, porque há muitas vertentes, muitos pontos a melhorar para correr sempre melhor de ano para ano. As pessoas têm de usufruir de uma experiência e de um tempo de qualidade, convívio, as conversas de motos, as histórias de viagens… queremos que isso seja o foco principal, que as pessoas venham, se divirtam e regressem em paz. Este ano correu tudo bem de um modo geral, não há nada de grave a apontar. Mas por exemplo, recordo-me que há dois anos, quando começamos com as pré-incrições, não esperávamos que viesse tanta gente ao mesmo tempo e acabou por gerar fila e algum descontentamento. Este ano conseguimos combater isso, já não aconteceu e há sempre coisas a ajustar. Só quem faz é que pode errar. Posso garantir que todas as coisas que são feitas, tudo o que é preparado aqui, tem como único intuito, o conforto das pessoas que nos visitam, mas nós não controlamos tudo e pode haver situações provocadas por multidões que possam correr menos bem, mas garantidamente, quando é pensado, é sempre da melhor forma. Ao longo do evento vamos tentando ajustar para melhor e às vezes conseguimos, senão ajustamos no ano seguinte. A Concentração são três dias e a margem de erro é muito curta. Não fazemos hoje, fazemos para a semana… aqui não dá, ou é agora ou não é! Por isso, o maior desafio é que corra tudo bem.
RM – Vai haver alguma novidade na próxima edição? O local será o mesmo?
PB – Há alguns anos que se fala no local do evento. Eu estou confiante, mas não tenho nada garantido, ainda que acredite que nos próximos anos vamos conseguir fazer a concentração no Vale das Almas. Não consigo dizer se são mais 5 ou mais 10 anos, mas pelo menos mais dois, três anos, vamos conseguir fazer ali a concentração. Cada vez mais a pressão urbana é maior, as moradias que estão a ser construídas ao lado, podem gerar alguns conflitos, mas vamos fazer tudo para manter o evento ali… ali é o sítio perfeito, temos o aeroporto perto, é a nossa cidade, onde tudo começou, é o local que está próximo da praia, e este triângulo de localização acaba por ser um triângulo espetacular e tudo faremos para nos mantermos ali por muitos anos.
Em relação ao bilhete diário vamos mantê-lo. À sexta-feira está fora de questão, mas o de quinta e o de sábado é uma questão de gestão no momento. No sábado a partir das 20 horas como tínhamos condições para isso e espaço para isso, acabamos por lançar um bilhete diário. Não posso garantir que vá existir no próximo ano. Temos de fazer uma análise na altura e consoante o espaço que temos, o movimento e como as coisas estão a correr, se fizer sentido, poderá existir. Se o número de participantes for muito elevado, não vai ser fácil termos esse bilhete de sábado, por isso, e é uma nota que quero deixar bastante clara, ninguém dê esse bilhete de sábado como garantido porque pode não existir. Este ano, por exemplo, o bilhete só surgiu sábado à hora de almoço e assim fez sentido e foi quando o colocamos em prática.
Este ano funcionou muito bem, foi vantajoso, a adesão foi boa, não tanta como no bilhete de quinta-feira, porque nesse dia sim, foi um sucesso porque há muita gente de Faro que gostava de ir à concentração, mas não lhes faz sentido comprar o bilhete dos três dias, e queriam ir só um dia para ver como é, e havendo a quinta-feira e com um custo simbólico (5 euros), acabou por ser uma opção. Há várias coisas que vamos aproveitar para fazer. Lançamos o cartaz ainda durante o mês de agosto, onde anunciamos a concentração de 2026, porque com as incertezas que têm existido em relação ao terreno nos últimos anos, se vai haver ou não concentração, notamos mais isso no público estrangeiro, que acaba por querer programar as coisas e não sabe se o há-de fazer ou não, por isso anuciámos já a concentração do ano que vem.
RM – Como vê a evolução da Concentração nos últimos anos – mais internacional, mais digital?
PB – Nos últimos anos a Concentração tem tido menos adesão internacional pelo facto de não terem conhecimento dos dias de quando é, por isso vamos combater esse facto lançando já as datas do próximo ano e já estamos a preparar as coisas para 2026. Da parte digital, este ano houve algo que temos recebido de forma agradável e os comentários são muito positivos. Tentamos ter uma concentração digital nas nossas redes sociais. Foi sempre tudo partilhado, o que havia, o que estava a acontecer, o que ia acontecer, e foi um trabalho feito de forma espetacular, e para o ano há-de ser melhor e cada vez mais o caminho é por aí, e é nessa parte que existem mais diferenças entre esta direção e a anterior, porque há pessoas mais novas e mais habituadas a estas novas tecnologias, e é importante que tenhamos toda a informação nas redes sociais e internet para quem está poder ter acesso e quem não está, ficar com água na boca para vir no próximo ano.
RM – Como o clube se financia atualmente e que estratégias têm para garantir a sua sustentabilidade financeira?
PB – Esta sede quando foi feita, foi feita a pensar nisso. Nós temos o bar à exploração, temos um ginásio cá em baixo também à exploração e temos algumas garagens alugadas para manter o clube durante o ano, por isso é logo uma boa fonte de receita. Depois há alguns eventos pontuais que fazemos que acabam por assegurar o resto do dinheiro e organização do clube, mas a parte principal que faz gerar dinheiro, acaba por ser a concentração e foi ela que nos fez chegar aqui e esta sede também é um reflexo disso. É um reflexo de todas as concentrações que foram organizadas até à altura da sede e por isso todas as pessoas que participarem na concentração, acabam por ter um bocadinho seu nesta sede, porque foi feita para os motociclistas e para quem gosta de passear de moto e conviver com motos.
Nos dois últimos anos, e não quero falar muito para trás, mas temos tido bons apoios da câmara municipal, que nos tem incentivado e reconhece o nosso trabalho perante a sociedade e a cidade.
RM – Qual é a importância das parcerias institucionais e comerciais para o clube?
PB – Já houve alturas em que se trabalhou mais nisso. Nos últimos anos esse trabalho não foi feito a fundo. Neste momento estamos a preparar-nos para arranjar alguns patrocínios, por isso quem nos quiser patrocinar, temos todo o interesse e há sempre lugar a uma negociação e conversação, logo estamos disponíveis para tudo. Ninguém da direção é remunerado, por isso todo o dinheiro que angariarmos não é para bem do próprio, é para bem da instituição e para poder ajudar quem precisa. Temos pessoas a trabalhar no Clube, mas grande parte do trabalho que é feito é em voluntariado.
RM – Qual foi a sua primeira ligação ao Moto Clube de Faro?
PB – Já foi há muitos anos. O meu irmão já pertencia ao Clube e foi através dele. Desde muito novo que começou o bichinho das motos. Lembro-me de ter ido à concentração com os meu pais porque o meu irmão estava lá. Já faleceu, mas era mais velho que eu 20 anos, logo não é uma diferença curta de idades. Lembro-me de ir à concentração, gostar do que vi, e depois começar a ir para lá trabalhar e colaborar, o que hoje em dia não é possível, só pessoas com mais de 16 anos é que podem trabalhar. Na altura não me recordo se tinha sete, oito ou dez anos, comecei a ir para lá trabalhar e fui com muito gosto até porque foi uma experiência que me fez crescer pessoalmente, e foi com isso que comecei a ir para a concentração…
RM – É motociclista há quanto tempo e o que representa a moto para si?
PB – A primeira moto que tive foi uma scooter com 16 anos. Depois fiz uma pausa e comprei a minha primeira moto quando já tinha 24 anos. A partir daí não mais parei. Fiz muitas viagens, fui a Marrocos, à Ilha de Man, aos Pinguins já não sei quantas vezes, toda uma história de motos, passeios, aventuras, já tenho muitos kms de moto, perto de 200 mil km de moto.
RM – Tem alguma história marcante vivida dentro do clube que possa partilhar?
PB – Isto tudo são emoções… tem tudo a ver com a concentração. Sou uma pessoa que gosta de desafios, por isso estou aqui, mas há histórias de passeios viagens e concentrações que foram marcantes, são muitas mesmo. Mas o desfile da Concentração em Faro cria sempre alguma emoção porque se sente como um agradecimento de todas as pessoas da cidade, batem palmas, recebem o desfile e isso acaba por ser, de certa forma, emocionante. Não é o fim da concentração, mas acaba por ser gratificante, é o fim do trabalho de meses… e é pleno e emocionante. Conseguimos uma vez mais. E é um trabalho que é de todos.
RM – O que gostaria de dizer aos membros do clube e à comunidade de Faro neste início de mandato?
PB – É uma pergunta um pouco delicada, mas que fomentem a união e o andar de moto. Quanto mais viagens fizerem, mais deslocações, mais passeios, a união sai reforçada e a moto sai homenageada. Melhora a amizade, que é o que nos une nestes eventos e não só.
RM – Como gostaria de ver o clube quando terminar o seu mandato?
PB – Gostaria de ver o clube unido e forte e a continuar a fazer o que tem sido feito até agora, mantendo o espírito e a camaradagem.
RM – O Moto Clube de Faro e Zé Amaro quase que se fundem… tem sido um desafio descolar a imagem do clube do ex-presidente?
PB – Tudo tem decorrido de forma simples e natural. A verdade é que se não fosse o Zé e todas as pessoas que iniciaram o clube, como o Braza, e têm feito um excelente trabalho ao longo destes 42 anos, não tínhamos chegado até aqui. Por isso, eles são pilares da casa e está tudo interligado. É uma continuidade. Se não existissem essas pessoas, hoje não existiria clube. De certa forma, eles os dois foram os pilares de tudo, do edifício que é o moto clube. Estarão cá sempre presentes e fazem parte da história do clube e do futuro do clube também. Agora é manter a obra bem feita.
Não tenho contas feitas, mas a média de idades da anterior direção andava pelos 55/60 anos… e agora anda na casa dos 40/45 anos. Já há aqui sangue novo, e agora é trabalhar com gente ainda mais nova, para que daqui a alguns anos possam ser os mais novos a pegar no clube… assim que fizer sentido.
RM – Enquanto jovem como olha para a imagem de Moto Clube? Clássica ou de evolução? O que se poderá fazer de novo para manter o interesse das pessoas no clube?
PB – A sociedade nos dias de hoje está cada vez mais egoísta. Há muitos clubes e é a sociedade que os tem criado… eu não estou bem aqui, zanguei-me com este, por isso vou criar o meu clube. Mas isto é um trabalho da sociedade… As pessoas são mais egoístas, pensam mais nelas e pouco nos outros e a ideia no Moto Clube de Faro é que as pessoas pensem na evolução e sejam unidas e que se ajudem umas às outras.



