Saí de Lisboa de Royal Enfield Bullet Trials 500, a vaidosa da família, pronta para mais um roteiro que, não sendo planeado ao detalhe, tinha um objetivo claro: Guimarães. Mas com a promessa firme de fugir sempre que pudesse das autoestradas e das suas malfadadas portagens.
POR Rui Domingues Fotos: Rui Domingues

O primeiro dia começou com um desvio até à Serra de Montejunto. Paragem em Meca, onde não resisti a visitar a Basílica de Santa Quitéria. E, claro, havia de tropeçar na lenda do Velho da Morada da Barrenta. Reza a lenda que um cavaleiro de Ourém se perdeu por aqueles vales ao anoitecer… mas não vou estragar a descoberta, fica o convite para os leitores visitarem e se encantarem com a história.
Com o horizonte de Pombal pela frente, nova paragem: Capela de Santana, em Santiago de Lítem. O descanso do “açucareiro” (leia-se traseiro) foi merecido, até porque as vistas sobre a Serra de Sicó são de primeira. A ideia era ir devagar, porque de moto quem vai com pressa perde metade do encanto.
Por estradas e estradinhas, localidades de nomes que não lembram a ninguém, chego a Coimbra! Aqui não houve como escapar à N1, sempre tão movimentada e aborrecida. O destino do dia: parque de campismo de Águeda. Clássico modo “low-cost”, com refeições de supermercado e noite em tenda. E sabem que mais? Foi tão bom!

Segundo dia
Mochila feita e bagagem presa na Enfield, avançamos pela N1 (não havia outra) até paragem obrigatória na Padaria Doce Tentação. Nome apropriado para quem já viajava com o estômago a reclamar. Aqui, um motociclista da velha guarda, quase octogenário, delicia-se com a Enfield. Contou-me histórias de viagens que fizera numa irmã mais antiga. Fico de coração cheio e com esperança de ainda ter muito caminho pela frente.
Finalmente abandono a N1 perto de S. João da Madeira. Procuro estradas dignas da Enfield e de mim: lentas, sinuosas, com paisagens de postal. A M504 foi um achado. Borralhoso, Cela, Pejão… vilarejos curiosos, até cruzar a N222 e chegar ao Anjo de Portugal, homenagem à tragédia de Entre-os-Rios. Uma visita que recomendo vivamente.

Chego a Guimarães cedo, encontro alojamento barato pelo “booking” e parto à descoberta. O centro histórico é um charme de ruas em calçada. E o teleférico da Penha leva-nos em dez minutos do bulício da cidade ao Santuário da Penha. À chegada, o santuário ergue-se como um Taj Mahal à portuguesa. E com um bónus: uma vista que vale cada passo e cada metro de subida. Junto ao santuário, estátua do Papa Pio IX e penedos graníticos característicos. Termino o dia já perto das dez da noite, com jantar simples e o corpo a pedir descanso.
Terceiro dia
Este trouxe o Gerês no horizonte. Pequeno-almoço reforçado no hotel Quinta da Tulha, conversa motociclista com a proprietária, também ela aficionada das duas rodas, e rumo ao que considero a região mais bonita do país. Primeira paragem: Cascata do Arado. Acesso de sonho para a minha Enfield inspirada nos modelos dos anos 50. Depois, escadaria digna de penitência até à cascata. Mas valeu a pena!

Visito o posto de turismo da Vila do Gerês para umas dicas e o restaurante Pedra Bela para o almoço. Simples mas eficaz. De volta à estrada, paro na cascata de S. Miguel (Portela do Homem) antes de pisar solo espanhol. No regresso, pela N205 até Braga, passo pelo Santuário de São Bento da Porta Aberta, o segundo maior do país depois de Fátima. Braga brinda-me com algumas abertas e passeio pelo centro histórico: a Sé, o Arco da Porta Nova e… as Tíbias de Braga! Um doce local, tradicional, que me confortou o espírito e o corpo.
Despedida de Guimarães
O quarto dia foi de despedida de Guimarães para rumar a Este, depois Sul, com dois dias dedicados ao regresso. Primeira paragem: Serras de Fafe e a icónica Casa do Penedo. Já a conhecia do Lés-a-Lés, mas desta vez estava fechada. Fica o registo da construção ao contrário: começaram pelo telhado. Filosofia de vida?

Sempre pela N206, passo por Cabeceiras de Basto, Ribeira de Pena até Vila Pouca de Aguiar. Uma zona de vinhas e boas curvas. Almoço em supermercado, porque não quero correr riscos de sonolência em plena condução. Continuo para Sul, com Belmonte em vista para pernoitar. IP2 abaixo, depois N16 até Vila Franca das Naves. Passo por Maçainhas, terra do cobertor de papa, património típico e quase esquecido, que até o Papa Francisco já recebeu.
Em Belmonte encontro a Quinta Formosa para descanso e, sem perder tempo, exploro a vila: castelo, ruelas, herança judaica e a Torre de Centum Cellas, enigmática. Faço ainda um salto rápido a Sortelha para mais umas fotos. O jantar e o descanso foram merecidos.
Último dia
Começa com um pequeno-almoço de rei e um pedido inusitado: a funcionária indiana do alojamento pede para fotografar a filha junto à minha Enfield. Reconheceu de imediato a marca da sua terra natal. Comovi-me, claro. Depois, rota obrigatória: Serra da Estrela, subida à Torre com direito a fotos dignas. Descida até Piodão, porque nunca é demais visitar aquele postal em forma de aldeia. Para regressar a Lisboa, optei pela app Calimoto, sempre a escolher os caminhos mais panorâmicos. A assinatura anual vale cada cêntimo para quem gosta de viajar de moto com o prazer da estrada.

Finalmente, casa. E como dizia George Augustus Moore: “Um homem viaja o mundo à procura do que precisa, e volta para casa para encontrar”.
E eu, com a Vaidosa Enfield, voltei de alma cheia… e de pneus gastos, claro!




